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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Encontro com o Diabo (1957)

Encontro com o Diabo (1957)
Encontro com o Diabo, título brasileiro de The Big Land, foi lançado nos Estados Unidos em 23 de fevereiro de 1957, com direção de Gordon Douglas, cineasta que trabalharia em diversos gêneros ao longo de sua carreira, incluindo faroestes, filmes policiais e aventuras. A produção foi realizada pela Jaguar Productions, empresa de Alan Ladd, e distribuída pela Warner Bros., tendo como protagonistas o próprio Alan Ladd, Virginia Mayo e Edmond O'Brien, acompanhados por Anthony Caruso, Julie Bishop, John Qualen e Don Castle. O roteiro foi escrito por David Dortort e Martin Rackin, a partir do romance Buffalo Grass, de Frank Gruber, publicado em 1955. O filme foi rodado em parte nas proximidades de Sonora, na Califórnia, embora sua história se passe principalmente no contexto do Kansas e do Missouri após a Guerra Civil. A narrativa acompanha Chad Morgan, ex-oficial confederado que retorna ao Texas e participa de uma grande condução de gado em direção ao Missouri. Os criadores de gado esperam conseguir bons preços por seus animais, mas encontram um mercado dominado pelo inescrupuloso Brog, que controla o único ponto ferroviário disponível para o transporte da carne. Depois de perceber que não conseguirá prosperar naquele sistema, Chad se une a Joe Jagger, um ex-arquiteto que caiu no alcoolismo, e começa a imaginar uma alternativa. Os dois decidem criar uma nova comunidade no Kansas, ligada à ferrovia, capaz de receber gado e produtos agrícolas. O projeto, porém, ameaça diretamente os interesses de Brog e transforma a construção da nova cidade em uma disputa pela própria sobrevivência.

A recepção da crítica americana foi predominantemente negativa, especialmente entre os principais críticos de jornais e revistas. Bosley Crowther, do The New York Times, foi particularmente duro e escreveu que as expectativas sugeridas pelo título "dribble down the drain", classificando o filme como um faroeste indistinto e criticando a artificialidade tanto da história quanto da atuação de Alan Ladd. Crowther chegou a descrever Ladd como um "pasteboard cutout of the cowboy", uma espécie de figura de papelão do herói que o ator havia interpretado em Shane. A crítica do Los Angeles Times foi igualmente desfavorável, afirmando que o filme era "about as plodding as a western can get and still be called one". A principal reclamação era justamente o ritmo lento, especialmente para um filme que pretendia combinar aventura, conflito de terras, condução de gado e tiroteios. O The New Yorker, entretanto, ofereceu uma crítica mais espirituosa e menos agressiva. John McCarten observou que havia algo relaxante em acompanhar Alan Ladd entre gado, pistoleiros e paisagens do Oeste, mas ironizou a conhecida economia emocional do ator, comparando sua capacidade de não demonstrar sentimentos à de John Wayne. Para McCarten, Ladd permanecia essencialmente um herói de poucas dimensões, embora isso fizesse parte de seu apelo junto ao público. Assim, a crítica americana reconheceu alguns valores de produção e a presença de Ladd, mas considerou o filme convencional demais para se destacar entre os numerosos faroestes produzidos em Hollywood durante os anos 1950.

A recepção internacional também não transformou The Big Land em um clássico do gênero. No Reino Unido, o filme foi lançado com o título Stampeded, uma alteração que procurava enfatizar seu caráter de aventura western e sua história envolvendo uma grande condução de gado. Na França, recebeu o título Les loups dans la vallée, enquanto em outros países europeus também ganhou títulos diferentes, demonstrando a tentativa dos distribuidores de apresentar a produção como um faroeste tradicional de ação. A crítica europeia posterior foi mais interessada em observar o lugar do filme dentro da carreira de Alan Ladd do que em tratá-lo como uma grande realização cinematográfica. Um dos aspectos mais curiosos da produção é que ela foi uma das obras realizadas pela Jaguar Productions, companhia criada por Ladd em 1953, numa tentativa do ator de controlar melhor seus próprios projetos. O filme também possui importância histórica por marcar a estreia cinematográfica dos filhos de Alan Ladd, Alana e David Ladd, embora David tenha se tornado especialmente conhecido no ano seguinte em The Proud Rebel. Outro elemento interessante é a participação de Edmond O'Brien, cuja interpretação de Joe Jagger oferece uma das dimensões mais humanas e descontraídas da produção. Não houve indicações ao Oscar ou ao Globo de Ouro, e The Big Land permaneceu à margem das principais premiações de 1957. Seu reconhecimento posterior veio principalmente de admiradores do faroeste clássico e de estudiosos da carreira de Alan Ladd.

Com duração de aproximadamente 92 minutos, The Big Land era uma produção relativamente enxuta para os padrões dos grandes faroestes americanos dos anos 1950. O orçamento exato não é facilmente encontrado em fontes confiáveis, mas o projeto fazia parte do novo acordo de produção entre a Jaguar Productions de Alan Ladd e a Warner Bros., que previa vários filmes ao longo de alguns anos. A produção teve uma campanha comercial apoiada sobretudo no nome de Ladd, que ainda era associado ao enorme sucesso de Shane, de 1953. O problema era justamente esse: praticamente todos os novos faroestes estrelados pelo ator eram comparados com aquele clássico, e The Big Land não conseguiu alcançar o mesmo impacto. O TCM observa que a comparação com Shane tornou-se inevitável e acabou prejudicando a percepção de vários dos westerns posteriores de Ladd. Não há atualmente um número consolidado e confiável de bilheteria mundial que permita apresentar uma renda total do filme sem correr o risco de reproduzir estimativas frágeis. Entretanto, registros de exibição contemporâneos mostram que a produção teve circulação comercial significativa em várias cidades americanas. O público encontrou aquilo que normalmente esperava de um faroeste de Alan Ladd: cavalgadas, conflitos por terras, gado, romance, vilões violentos e um confronto final. A recepção popular posterior também é moderada: o IMDb registra aproximadamente 6,3/10, enquanto o Rotten Tomatoes apresenta apenas 36% de aprovação crítica, embora a amostragem seja extremamente pequena. Portanto, comercialmente o filme cumpriu sua função como entretenimento de gênero, mas não se transformou em um dos grandes sucessos da carreira de Ladd.

Atualmente, The Big Land é visto principalmente como um faroeste de segunda linha dentro da filmografia de Alan Ladd, mas isso não significa que seja desprovido de interesse. O filme possui uma importância especial para quem deseja acompanhar a fase em que Ladd tentou assumir maior controle sobre sua carreira através da Jaguar Productions. A própria Turner Classic Movies reconhece que, apesar das críticas negativas de Bosley Crowther, admiradores de Ladd e do gênero podem encontrar prazer na produção, particularmente nas cenas de condução de gado e no trabalho do veterano diretor de fotografia John F. Seitz. Seitz havia trabalhado em clássicos como Double Indemnity, The Lost Weekend, Sunset Boulevard e This Gun for Hire, e sua presença dá ao filme uma qualidade visual superior àquela que sua reputação crítica poderia sugerir. Também chama atenção a tentativa de apresentar a construção de uma cidade e de uma nova rota comercial como o verdadeiro objetivo do herói, em vez de simplesmente contar uma história de vingança. Chad Morgan não deseja inicialmente matar seus inimigos; sua experiência na Guerra Civil fez com que rejeitasse a violência. Essa característica dá ao personagem uma dimensão interessante, ainda que o roteiro acabe conduzindo inevitavelmente ao tradicional duelo final. O filme também registra um momento importante da carreira de Alan Ladd, poucos anos depois de Shane e pouco antes de produções como The Proud Rebel e The Badlanders. Assim, embora esteja longe dos grandes clássicos do western, The Big Land permanece uma peça curiosa do cinema de gênero dos anos 1950, especialmente para os admiradores de Ladd e para quem se interessa pela evolução do faroeste americano no período.

Encontro com o Diabo (The Big Land, Estados Unidos, 1957) Direção: Gordon Douglas / Roteiro: David Dortort e Martin Rackin, baseado no livro Buffalo Grass, de Frank Gruber / Elenco: Alan Ladd, Virginia Mayo, Edmond O'Brien, Anthony Caruso, Julie Bishop e John Qualen / Sinopse: Após descobrir que um poderoso comerciante controla o mercado de gado do Missouri, um ex-oficial confederado decide construir uma nova cidade e uma ligação ferroviária no Kansas, enfrentando a violenta reação de seus inimigos.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Encontro com o Diabo

Título no Brasil: Encontro com o Diabo
Título Original: The Big Land
Ano de Lançamento: 1957
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Gordon Douglas
Roteiro: Frank Gruber, David Dortort
Elenco: Alan Ladd, Virginia Mayo, Edmond O'Brien, Anthony Caruso, Julie Bishop, John Qualen

Sinopse:
Após a Guerra Civil, a amargura permaneceu entre sulistas e nortistas. A fim de abastecer as cidades do leste com carne bovina, os ex-confederados do Texas levam seus rebanhos para as ferrovias. Depois de uma longa e difícil viagem de gado pelas Bad Lands, o ex-oficial confederado Chad Morgan (Alan Ladd) e seus parceiros chegam a uma ferrovia no Missouri, onde um comprador de gado corrupto e seu grupo de pistoleiros se oferecem para comprar os rebanhos dos texanos por uma quantia irrisória. Não demora muito e uma situação de conflito surge entre todos eles.

Comentários:
Depois do sucesso do filme "Os Brutos Também Amam" o ator Alan Ladd iria retornar ao gênero western, mais cedo ou mais tarde. E o fez em grande estilo com esse filme realmente muito bom. Seu personagem seguia na mesma linha, era um cowboy calmo, cortês, educado, até mesmo fino e elegante ao seu próprio modo, mas que sabia agir com armas de fogo quando isso se tornava necessário. Ele é um criador de gado, homem íntegro e honesto, que acaba tendo que lidar com um bando de facínoras que está obviamente de olho em sua manada. Se der o passo errado e mostrar algum tipo de fraqueza, será morto e seu gado roubado. O roteiro do filme, muito bom aliás, deixa claro que apesar do fim da guerra civil os problemas entre nortistas e sulistas continuavam, pois todos estavam à flor da pele, prestes a explodir em acessos de fúria e violência extrema, ao menor sinal de provocação mútua. Além disso os sulistas se ressentiam demais por terem perdido a guerra, o que tornava tudo ainda mais explosivo. Um excelente filme de western. Ótimo item para se ter em sua coleção pessoal de filmes de faroeste clássico. 

Pablo Aluísio.


terça-feira, 20 de maio de 2025

Embrutecido Pela Violência

Filme bem marcante da carreira do ator Kirk Douglas. No enredo ele interpreta Len Merrick (Kirk Douglas), um orgulhoso Marshal federal (uma espécie de xerife com jurisdição em todo o país), que evita um enforcamento numa cidade do velho oeste. O acusado, Timothy 'Pop' Keith (Walter Brennan), está para ser enforcado por supostamente ter roubado gado e assassinado o filho de um rico e influente rancheiro da região. Para Len sua execução é completamente ilegal e por essa razão ele se compromete a levar Keith até um tribunal do júri na cidade de Santa Loma onde finalmente será devidamente julgado, perante um juiz de direito e um corpo de jurados, tudo como manda a lei. A jornada até lá porém não será tranquila e nem pacífica pois a família Roden está disposta a vingar a morte de um de seus membros. 

Esse western dirigido pelo mestre Raoul Walsh tem um argumento muito mais sofisticado do que pode parecer à primeira vista. A história não foge muito do que vemos na tela, com um obcecado homem da lei tentando seguir os trâmites legais a todo custo, mesmo sendo ameaçado e perseguido por um bando de justiceiros pelo deserto afora. A questão é que uma vez em Santa Loma - para onde está levando um acusado - ele descobre que nem sempre a justiça é devidamente feita pelos tribunais. Há uma série de influências econômicas, sociais e extra jurídicas que determinam se alguém é considerado culpado ou não.

Durante a jornada até lá ele vai colhendo impressões e verdades sobre o homem que tem sob custódia e descobre que seu próprio julgamento pessoal, criado na convivência com o suposto criminoso, tem mais validade do que um apressado e mal feito julgamento na calada da noite. Só esse aspecto já tornaria o filme bem acima da média dos demais faroestes da época, mas há outras qualidades dignas de nota. Walsh rodou um filme enxuto, diria até econômico, porém muito bonito, em bela fotografia em preto e branco. Rodado no deserto da Califórnia, em belas locações com penhascos e rochas enormes, o filme se valoriza enormemente por causa desse cenário natural rico em bonitas paisagens. O elenco também é outro ponto forte.

Kirk Douglas está de certo modo em seu tipo habitual, a do xerife durão, até insensível que carrega velhos traumas do passado, em especial uma certa culpa pelo que aconteceu ao seu pai anos atrás (ele também era um homem da lei íntegro que acabou sendo linchado por tentar cumprir o que dizia a letra fria do devido processo legal). Agora, firme em suas convicções, ele precisa levar o acusado perante um juiz para que seja devidamente julgado. A questão é que a filha do homem preso, interpretada pela linda atriz Virginia Mayo, também quer justiça, mas ao seu modo. Douglas e Mayo inclusive soltam faíscas de atração no meio do deserto. Uma dupla que deu muito certo e que trouxe muita paixão reprimida para a tela. Com cabelos curtinhos e jeito até bem rude, Mayo acaba roubando todas as atenções por causa de sua personalidade ao mesmo tempo geniosa e sensual. Então é isso. "Embrutecidos Pela Violência" é muito mais do que aparenta ser. Um bom argumento, bem sólido e coerente, apoiado por um enredo que não nega os mais tradicionais cânones do western americano.

Embrutecido Pela Violência (Along the Great Divide, Estados Unidos, 1951) Estúdio: Warner Bros / Direção: Raoul Walsh / Roteiro: Walter Doniger, Lewis Meltzer / Elenco: Kirk Douglas, Virginia Mayo, John Agar, Walter Brennan / Sinopse: Veterano xerife tenta manter a lei em uma região violenta e hostil do velho oeste dos Estados Unidos.

Pablo Aluísio.