terça-feira, 29 de setembro de 2026

Paixão dos Fortes

Paixão dos Fortes
Reza a lenda que no ano de 1927 o mítico Wyatt Berry Stapp Earp, ou simplesmente Wyatt Earp (1848 -1929) numa entrevista concedida ao mestre John Ford, contou-lhe em detalhes como fora o famoso duelo de Ok.Corral que ocorrera na cidade de Tombstone no ano de 1881, entre os irmãos Earp e os Clanton. Anos depois, transformado numa obra de arte e batizado de "Paixão dos Fortes" (My Darling Clementine - 1946) o clássico - erguido na exuberância de Monument Valley, palco principal do legendário diretor John Ford - conta a história (verídica) dos irmãos Earp (Wyatt, James, Virgil e Morgan Earp) que depois de abandonarem a cidade de Dodge City - onde Wyatt Earp (Henry Fonda) era xerife - partem para a região do Arizona dedicando-se a criação de gado.

Certa noite, Wyatt, Virgil e Morgan Earp vão até à cidade de Tombstone para conhecê-la um pouco mais e deixam o irmão mais novo, James Earp, sozinho, tomando conta do gado e do acampamento. Ao retornarem, o cenário é desolador: todo o gado havia sido roubado e James Earp, assassinado. Depois de enterrar o irmão, Wyatt torna-se xerife de Tombstone com o objetivo de vingar os assassinos do jovem irmão, e manter a cidade em paz. Ele ainda não sabe quem são os assassinos de seu irmão, no entanto, uma certa turma não sai de sua cabeça: os Clanton (Clanton pai, Billy Clanton, Ike Clanton) e seus comparsas: Billy Claiborne, Tom e Frank McLaury. Wyatt conhece Chihuahua (Linda Darnel) uma espevitada dançarina do saloon local, que alimenta apenas um sonho: a volta de sua paixão, John Henry "Doc" Holliday, ou apenas Doc Holliday: pistoleiro, jogador e dentista (daí o apelido Doc).

A fervura aumenta com a chegada à cidade do irascível Doc Holliday (Victor Mature). Depois de rever a bela Chihuahua o dentista conhece de perto o lendário Wyatt Earp. Wyatt aproxima-se de Doc, mas o encontro dos dois que a princípio poderia se tranformar numa grande amizade vira uma conturbada relação de amizade e ódio que se arrasta até o fim do clássico. Certo dia chega à cidade a bela Clementine Carter (Cathy Downs). Antiga paixão do Doc, Clementine (que inspira a trilha sonora) chega para reencontrar seu antigo e intratável amor. Doc odeia sua presença e diz que se ela não for embora, ele irá. Wyatt apaixona-se por Clementine que resolve ficar. Revoltada com a presença de Clementine em Tombstone, Chihuahua vai até seu quarto para expulsá-la do hotel e da cidade no exato momento em que  é surpreendida pela chegada de Wyatt Earp que acalma a situação. Enquanto conversa com Chihuahua, Earp nota que ela está usando um colar que pertenceu ao seu irmão assassinado. O famoso xerife fica então a poucos instantes de descobrir quem realmente matou seu irmão.

Paixão dos Fortes é um diamante da sétima arte e foi reconhecido pelo próprio John Ford como o seu filme mais precioso. Durante quarenta e cinco dias de filmagens, Ford construiu um verdadeiro monumento, não só ao cinema mas às artes em geral. Ele não era apenas um diretor de cinema, mas também um poeta, um pintor e um visionário de cenas antológicas que marcaram para sempre a história do cinema americano. No clássico, sua chancela está em cada cena e em cada fala. A esplêndida direção de fotografia de Joseph Mac Donald equilibra as imagens em preto e branco com brilhos e sombreamentos excepcionais. O elenco, recheado de lendas do cinema como Henry Fonda, Linda Darnell, Victor Mature e Walter Brennan são a cereja do bolo deste clássico inesquecível que entrou para a história do cinema.

Paixão dos Fortes (My Darling Clementine, EUA, 1946) Direção: John Ford / Roteiro: Samuel G. Engel, Winston Miller / Elenco:  Henry Fonda, Linda Darnell, Victor Mature / Sinopse: Um dos grandes clássicos de John Ford "Paixão dos Fortes" conta parte da história do lendário xerife Wyatt Earp e o famoso conflito armado ocorrido no OK Corral.

Telmo Vilela Jr.

Consciências Mortas

Título no Brasil: Consciências Mortas
Título Original: The Ox-Bow Incident
Ano de Lançamento: 1942
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: William A. Wellman
Roteiro: Lamar Trotti, Walter Van Tilburg Clark
Elenco: Henry Fonda, Anthony Quinn, Dana Andrews

Sinopse:
Um rancheiro é supostamente assassinado por três homens nas proximidades de uma pequena cidade do velho oeste. Alarmados pela notícia os moradores formam um grupo de justiceiros que vão até as colinas próximas para encontrar e enforcar os criminosos, ou pelo menos, aquelas pessoas que eles acreditam ser os culpados. E toda essa ira e violência sem freios logo se transforma numa grande tragédia. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme. 

Comentários:
Você não precisa ser formado em Direito. Em algum momento de sua vida você deve ter ouvido a frase "Todos são inocentes até que se prove o contrário". Essa é a base do princípio da presunção da inocência, um dos pilares de um verdadeiro Estado Democrático de Direito. Esse filme, que tem um excelente roteiro, mostra com sua história a importância desse pilar da ciência jurídica. Não foi algo que alguém inventou, mas sim uma construção histórica e social, baseada nas experiências da vida! Não adianta fazer justiça com as próprias mãos, não adianta eleger a violência como solução para a criminalidade dentro de uma sociedade. E jamais se deve deixar nas mãos de um grupo de imbecis a realização da justiça. O que vemos acontecer nesse filme é a tragédia que surge quando esses princípios jurídicos são deixados de lado por um grupo que se auto intitula dono da verdade, do bem e da honestidade. Sempre desconfie de pessoas assim! Já conhecemos bem como termina uma história dessas. E a vemos se repetir, lamentavelmente, nos dias atuais. Pelo visto essas pessoas brutalizadas e ignorantes nunca vão mesmo aprender com as lições que a História nos deixou. 

Pablo Aluísio.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Ao Rufar dos Tambores

Ao Rufar dos Tambores
Um filme do mestre John Ford menos conhecido. Porém não menos importante. Na história um casal de jovens pioneiros se casa. Mal a cerimônia de casamento termina e eles já sobem em uma carroça em direção ao oeste. O marido, Gilbert Martin (Henry Fonda), comprou um rancho na fronteira. A esposa, Lana Magdelana (Claudette Colbert) é uma moça da cidade e fica assustada com a rudeza do lugar. Fica mais apavorada ainda quando encontra um velho índio, amigo de Gilbert, dentro de sua casa. Apesar desses sustos iniciais as coisas seguem até bem nos primeiros dias.

Só que estoura a guerra de independência das 13 colônias americanas. Os ingleses se aliam com tribos de índios que atacam e queimam as fazendas dos colonos, inclusive a casa onde vive o casal que protagoniza a história. Eles fogem, conseguem sobreviver e se instalam em um forte de madeira mantido e defendido pelos próprios habitantes da região. A guerra é feroz, muitos homens morrem no campo de batalha e Lana logo percebe como é dura a vida de uma mulher naquelas terras sem lei, forjadas na violência.

"Ao Rufar dos Tambores" é um filme muito bom, explorando a vida dos pioneiros do oeste em um momento muito delicado da história dos Estados Unidos. Há cenas emblemáticas, como a da apresentação da primeiras bandeira da nova nação para as pessoas que viviam na fronteira selvagem. Como é de praxe em filmes de John Ford ele também acrescentou alguns breves momentos de humor para não deixar o filme tão pesado. Henry Fonda, como sempre ótimo, mas quem acaba roubando a cena é a atriz que interpreta sua esposa, Claudette Colbert. Enfim, um filme que resgata a vida de pessoas comuns, no limiar do nascimento daquela jovem nação.

Ao Rufar dos Tambores (Drums Along the Mohawk, Estados Unidos, 1939) Direção: John Ford / Roteiro: Lamar Trotti, Sonya Levien / Elenco: Claudette Colbert, Henry Fonda, Edna May Oliver, Eddie Collins / Sinopse: Um casal de pioneiros tenta vencer na vida, em um rancho da fronteira, durante a guerra de independência dos Estados Unidos. No novo lar acabam sendo atacados por índios e ingleses, que lutam contra a separação do colônia do império britânico. Filme indicado ao Oscar na categoria de melhor atriz coadjuvante (Edna May Oliver).

Pablo Aluísio.

A Mocidade de Lincoln

Título no Brasil: A Mocidade de Lincoln
Título Original: Young Mr. Lincoln
Ano de Produção: 1939
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: John Ford
Roteiro: Lamar Trotti
Elenco: Henry Fonda, Alice Brady, Marjorie Weaver, Arleen Whelan, Eddie Collins, Richard Cromwell
  
Sinopse:
O sonho do jovem Abraham Lincoln (Henry Fonda) é se tornar um grande advogado. Até chegar lá porém ele terá que superar muitos desafios. Filho de uma humilde família da interiorana Hodgenville, no Kentucky, trabalhador rural, ele precisa mostrar seu valor nos estudos, mesmo sem muito apoio ou incentivo por parte de seus pais. O filme narra justamente os anos iniciais de sua vida profissional, quando apenas sonhava em vencer na vida.

Comentários:
Quando se fala em filmes sobre a figura do presidente Abraham Lincoln, sempre se lembra dessa produção dos anos 30. É um dos clássicos da brilhante carreira do mestre John Ford. O filme foi vencedor do Oscar na categoria de Melhor Roteiro (Lamar Trotti) justamente por romantizar os primeiros anos de atuação de Lincoln, quando ele era apenas um jovem advogado desconhecido, do interior do Kentucky. Apesar de ser inegavelmente um grande filme, desses para se ter em sua coleção, o fato é que há dois pequenos erros em sua narrativa. O primeiro diz respeito aos próprios fatos mostrados na tela, todos eles meramente ficcionais. Obviamente Lincoln realmente foi um advogado de interior antes de entrar na vida política. Isso é certo, porém os acontecimentos mostrados no filme, os detalhes, as causas, essas são frutos da imaginação do roteirista Lamar Trotti. Outro erro digno de nota vem da própria personalidade do protagonista. Interpretado por Henry Fonda, o jeito de ser e agir do seu Lincoln tem mais a ver com a imagem simbólica que ele construiu em seus anos na Casa Branca, do que com a do jovem advogado cheio de prosa que é encontrado nos livros de história. Em sua juventude Abraham Lincoln era dado a contar causos, piadas e anedotas divertidas, muitas delas explorando a vida de um homem simples do campo. Nada a ver com atitudes gloriosas, majestosas, da imagem oficial. O Lincoln da história era bem mais divertido. Assim o filme perde bastante no quesito veracidade histórica, embora como puro cinema é realmente uma excelente obra cinematográfica.

Pablo Aluísio.

Henry Fonda - Filmes de Faroeste


Henry Fonda - Filmes de Faroeste

Décadas de 1930 e 1940: 
Jesse James 
A Mocidade de Lincoln 
Ao Rufar dos Tambores 
A Vingança de Frank James 
Consciências Mortas
Paixão dos Fortes
Sangue de Heróis

Pesquisa: Pablo Aluísio. 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Rebelde Orgulhoso (1958)

O Rebelde Orgulhoso (1958)
O Rebelde Orgulhoso, título brasileiro de The Proud Rebel, foi lançado nos Estados Unidos em 1º de julho de 1958, sob a direção do lendário Michael Curtiz, responsável por clássicos como Casablanca, Mildred Pierce e The Adventures of Robin Hood. A produção foi realizada por Samuel Goldwyn Jr., através da Formosa Productions, e teve roteiro de Joseph Petracca e Lillie Hayward, baseado na história Journal of Linnett Moore, de James Edward Grant. O elenco reuniu Alan Ladd, Olivia de Havilland, Dean Jagger, David Ladd, Cecil Kellaway e James Westerfield, com o jovem David Ladd, filho de Alan Ladd, recebendo destaque especial.  A história se passa pouco depois do fim da Guerra Civil Americana. O ex-soldado confederado John Chandler retorna ao Sul e descobre que sua casa foi destruída, sua esposa morreu e seu filho pequeno, David, ficou traumatizado depois de testemunhar a tragédia. O menino perdeu completamente a capacidade de falar e seu pai decide levá-lo para o Norte, procurando um médico que possa ajudá-lo. Durante a viagem, Chandler chega a uma pequena comunidade de Illinois e acaba envolvido em um conflito que termina com sua prisão. Uma fazendeira viúva chamada Linnett Moore, interpretada por Olivia de Havilland, paga sua fiança e oferece-lhe trabalho em sua propriedade. Chandler aceita a proposta para conseguir dinheiro e continuar procurando ajuda para o filho, mas a convivência com Linnett e os habitantes da região obriga o antigo confederado a enfrentar o preconceito contra os sulistas derrotados. Aos poucos, o relacionamento entre pai, filho e a determinada fazendeira transforma a jornada de sobrevivência em uma história de reconstrução emocional.

A reação da crítica americana foi predominantemente positiva, especialmente em relação ao aspecto humano da história e às interpretações. A Variety classificou o filme como um "suspenseful and fast-action post-Civil War yarn", destacando que as caracterizações eram um dos principais pontos fortes e que a atuação do jovem David Ladd era especialmente atraente. O The New York Times, através do crítico A. H. Weiler, foi igualmente favorável e chamou a produção de um drama "genuinely sentimental but often moving", além de classificá-la como um "honestly heartwarming drama". Weiler observou que o filme estava mais interessado em revelar a personalidade dos personagens do que em apresentar violência e tiroteios, uma escolha incomum para um western da época. O crítico, porém, apontou algumas irregularidades: considerou que a história era desenvolvida de maneira desigual, que o ritmo diminuía em determinados momentos e que o final feliz podia ser previsto com bastante antecedência. Ainda assim, Weiler considerou essas falhas secundárias diante da força emocional do conjunto. A crítica americana valorizou especialmente a relação entre Alan Ladd e seu filho, que produzia uma dimensão de autenticidade familiar difícil de obter em um filme desse tipo. Olivia de Havilland também recebeu elogios por interpretar uma mulher independente e endurecida pelas circunstâncias, bem diferente das tradicionais heroínas frágeis dos westerns. O resultado foi visto como um faroeste sentimental, mas sincero, capaz de combinar aventura com um estudo de personagens.

Na Europa, The Proud Rebel recebeu uma recepção geralmente favorável, embora tenha permanecido mais conhecido entre os admiradores do western americano do que entre os grandes círculos da crítica. No Reino Unido, o filme chegou aos cinemas em outubro de 1958, enquanto na França recebeu o título Le Fier Rebelle, mantendo a ideia de orgulho e resistência presente no título original.  Na Itália, foi lançado como L'orgoglioso ribelle, e avaliações posteriores do Morandini o classificaram como um western de "bons sentimentos", destacando justamente a redução da violência e a interpretação de Alan Ladd. A produção também despertou interesse por apresentar uma perspectiva menos convencional sobre o período posterior à Guerra Civil. Em vez de concentrar a narrativa em vingança, duelos e confrontos entre Norte e Sul, o filme procura mostrar as dificuldades enfrentadas por pessoas que tentavam reconstruir suas vidas depois da derrota confederada. Essa característica provavelmente contribuiu para sua boa aceitação entre espectadores europeus interessados nos westerns mais dramáticos e humanistas. O filme, entretanto, não alcançou o mesmo impacto internacional de grandes produções do gênero. Também não recebeu indicações ao Oscar, mas a atuação de David Ladd chamou atenção durante a temporada de premiações. No Globo de Ouro de 1959, o jovem ator recebeu uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante e também venceu um Prêmio Especial como melhor ator juvenil. Ele ainda recebeu uma Medalha de Ouro Especial do Photoplay Awards, consolidando-se como uma das grandes revelações juvenis de Hollywood naquele período.

Com orçamento estimado em US$ 1,6 milhão, The Proud Rebel foi uma produção independente de Samuel Goldwyn Jr., que teve dificuldades para conseguir financiamento de estúdios e acabou financiando pessoalmente o filme, antes de vender os direitos de distribuição doméstica para a Buena Vista. A própria documentação da AFI registra que Goldwyn originalmente procurou financiamento de aproximadamente US$ 1,2 milhão, mas decidiu assumir pessoalmente um orçamento maior para conseguir realizar o projeto como desejava. Não há números de bilheteria mundial confiáveis e amplamente documentados que permitam estabelecer uma renda total sem recorrer a estimativas pouco seguras. O filme teve, contudo, uma distribuição comercial significativa nos Estados Unidos e posteriormente em diversos mercados internacionais. O nome de Alan Ladd era naturalmente um dos principais atrativos, especialmente depois do sucesso de Shane, e a presença de Olivia de Havilland acrescentava enorme prestígio ao elenco. O público também parece ter respondido positivamente ao aspecto sentimental da história, particularmente à relação entre John e seu filho. A avaliação atual do IMDb está em torno de 7,1/10, enquanto o Rotten Tomatoes apresenta 67% de aprovação da crítica, embora baseado em apenas uma avaliação crítica registrada. Os espectadores que comentam a produção frequentemente destacam a atuação de David Ladd, a fotografia das paisagens de Utah e o caráter emocional do relacionamento entre pai e filho. Assim, mesmo sem se transformar em um fenômeno de bilheteria comparável a grandes westerns da década, o filme conseguiu cumprir sua função como drama de época e permaneceu suficientemente popular para sobreviver à passagem do tempo.

Atualmente, The Proud Rebel é considerado por muitos admiradores do western clássico um filme subestimado dentro da carreira de Alan Ladd. Não possui o mesmo prestígio de Shane, mas apresenta uma proposta bastante diferente e, em alguns aspectos, mais íntima. A direção de Michael Curtiz evita transformar a história em uma sucessão de tiroteios e concentra-se na reconstrução emocional de uma família destruída pela guerra. A atuação de David Ladd continua sendo um dos elementos mais lembrados da produção, especialmente porque o silêncio de seu personagem exige que grande parte das emoções seja transmitida por expressões e gestos. A relação entre Ladd e Olivia de Havilland também é tratada de maneira relativamente madura para os padrões do western familiar dos anos 1950. O filme apresenta ainda uma perspectiva interessante sobre as divisões entre Norte e Sul, mostrando um ex-confederado vivendo em território nortista e enfrentando desconfiança, preconceito e hostilidade. O Turner Classic Movies destaca justamente a longa história de desenvolvimento do projeto por Samuel Goldwyn Jr., que trabalhou durante anos para levar a história às telas. A produção também ganhou uma curiosa segunda vida no cinema indiano: em 1964, o ator e diretor Kishore Kumar realizou Door Gagan Ki Chhaon Mein, inspirado na história de pai e filho do filme americano. Dessa maneira, The Proud Rebel permanece como um western sentimental, humanista e relativamente pouco violento, valorizado principalmente pelas atuações e pela relação entre seus personagens. Embora não esteja entre os títulos mais famosos de Michael Curtiz ou Alan Ladd, é uma obra que merece atenção justamente por mostrar uma faceta mais emocional do western americano.

O Rebelde Orgulhoso (The Proud Rebel, Estados Unidos, 1958) Direção: Michael Curtiz / Roteiro: Joseph Petracca e Lillie Hayward, baseado na história Journal of Linnett Moore, de James Edward Grant / Elenco: Alan Ladd, Olivia de Havilland, Dean Jagger, David Ladd, Cecil Kellaway e James Westerfield / Sinopse: Após a Guerra Civil, um ex-confederado viaja com o filho traumatizado em busca de um médico, mas acaba trabalhando para uma viúva de Illinois e encontrando naquele lugar a possibilidade de reconstruir sua vida e a do menino.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

Encontro com o Diabo (1957)

Encontro com o Diabo (1957)
Encontro com o Diabo, título brasileiro de The Big Land, foi lançado nos Estados Unidos em 23 de fevereiro de 1957, com direção de Gordon Douglas, cineasta que trabalharia em diversos gêneros ao longo de sua carreira, incluindo faroestes, filmes policiais e aventuras. A produção foi realizada pela Jaguar Productions, empresa de Alan Ladd, e distribuída pela Warner Bros., tendo como protagonistas o próprio Alan Ladd, Virginia Mayo e Edmond O'Brien, acompanhados por Anthony Caruso, Julie Bishop, John Qualen e Don Castle. O roteiro foi escrito por David Dortort e Martin Rackin, a partir do romance Buffalo Grass, de Frank Gruber, publicado em 1955. O filme foi rodado em parte nas proximidades de Sonora, na Califórnia, embora sua história se passe principalmente no contexto do Kansas e do Missouri após a Guerra Civil. A narrativa acompanha Chad Morgan, ex-oficial confederado que retorna ao Texas e participa de uma grande condução de gado em direção ao Missouri. Os criadores de gado esperam conseguir bons preços por seus animais, mas encontram um mercado dominado pelo inescrupuloso Brog, que controla o único ponto ferroviário disponível para o transporte da carne. Depois de perceber que não conseguirá prosperar naquele sistema, Chad se une a Joe Jagger, um ex-arquiteto que caiu no alcoolismo, e começa a imaginar uma alternativa. Os dois decidem criar uma nova comunidade no Kansas, ligada à ferrovia, capaz de receber gado e produtos agrícolas. O projeto, porém, ameaça diretamente os interesses de Brog e transforma a construção da nova cidade em uma disputa pela própria sobrevivência.

A recepção da crítica americana foi predominantemente negativa, especialmente entre os principais críticos de jornais e revistas. Bosley Crowther, do The New York Times, foi particularmente duro e escreveu que as expectativas sugeridas pelo título "dribble down the drain", classificando o filme como um faroeste indistinto e criticando a artificialidade tanto da história quanto da atuação de Alan Ladd. Crowther chegou a descrever Ladd como um "pasteboard cutout of the cowboy", uma espécie de figura de papelão do herói que o ator havia interpretado em Shane. A crítica do Los Angeles Times foi igualmente desfavorável, afirmando que o filme era "about as plodding as a western can get and still be called one". A principal reclamação era justamente o ritmo lento, especialmente para um filme que pretendia combinar aventura, conflito de terras, condução de gado e tiroteios. O The New Yorker, entretanto, ofereceu uma crítica mais espirituosa e menos agressiva. John McCarten observou que havia algo relaxante em acompanhar Alan Ladd entre gado, pistoleiros e paisagens do Oeste, mas ironizou a conhecida economia emocional do ator, comparando sua capacidade de não demonstrar sentimentos à de John Wayne. Para McCarten, Ladd permanecia essencialmente um herói de poucas dimensões, embora isso fizesse parte de seu apelo junto ao público. Assim, a crítica americana reconheceu alguns valores de produção e a presença de Ladd, mas considerou o filme convencional demais para se destacar entre os numerosos faroestes produzidos em Hollywood durante os anos 1950.

A recepção internacional também não transformou The Big Land em um clássico do gênero. No Reino Unido, o filme foi lançado com o título Stampeded, uma alteração que procurava enfatizar seu caráter de aventura western e sua história envolvendo uma grande condução de gado. Na França, recebeu o título Les loups dans la vallée, enquanto em outros países europeus também ganhou títulos diferentes, demonstrando a tentativa dos distribuidores de apresentar a produção como um faroeste tradicional de ação. A crítica europeia posterior foi mais interessada em observar o lugar do filme dentro da carreira de Alan Ladd do que em tratá-lo como uma grande realização cinematográfica. Um dos aspectos mais curiosos da produção é que ela foi uma das obras realizadas pela Jaguar Productions, companhia criada por Ladd em 1953, numa tentativa do ator de controlar melhor seus próprios projetos. O filme também possui importância histórica por marcar a estreia cinematográfica dos filhos de Alan Ladd, Alana e David Ladd, embora David tenha se tornado especialmente conhecido no ano seguinte em The Proud Rebel. Outro elemento interessante é a participação de Edmond O'Brien, cuja interpretação de Joe Jagger oferece uma das dimensões mais humanas e descontraídas da produção. Não houve indicações ao Oscar ou ao Globo de Ouro, e The Big Land permaneceu à margem das principais premiações de 1957. Seu reconhecimento posterior veio principalmente de admiradores do faroeste clássico e de estudiosos da carreira de Alan Ladd.

Com duração de aproximadamente 92 minutos, The Big Land era uma produção relativamente enxuta para os padrões dos grandes faroestes americanos dos anos 1950. O orçamento exato não é facilmente encontrado em fontes confiáveis, mas o projeto fazia parte do novo acordo de produção entre a Jaguar Productions de Alan Ladd e a Warner Bros., que previa vários filmes ao longo de alguns anos. A produção teve uma campanha comercial apoiada sobretudo no nome de Ladd, que ainda era associado ao enorme sucesso de Shane, de 1953. O problema era justamente esse: praticamente todos os novos faroestes estrelados pelo ator eram comparados com aquele clássico, e The Big Land não conseguiu alcançar o mesmo impacto. O TCM observa que a comparação com Shane tornou-se inevitável e acabou prejudicando a percepção de vários dos westerns posteriores de Ladd. Não há atualmente um número consolidado e confiável de bilheteria mundial que permita apresentar uma renda total do filme sem correr o risco de reproduzir estimativas frágeis. Entretanto, registros de exibição contemporâneos mostram que a produção teve circulação comercial significativa em várias cidades americanas. O público encontrou aquilo que normalmente esperava de um faroeste de Alan Ladd: cavalgadas, conflitos por terras, gado, romance, vilões violentos e um confronto final. A recepção popular posterior também é moderada: o IMDb registra aproximadamente 6,3/10, enquanto o Rotten Tomatoes apresenta apenas 36% de aprovação crítica, embora a amostragem seja extremamente pequena. Portanto, comercialmente o filme cumpriu sua função como entretenimento de gênero, mas não se transformou em um dos grandes sucessos da carreira de Ladd.

Atualmente, The Big Land é visto principalmente como um faroeste de segunda linha dentro da filmografia de Alan Ladd, mas isso não significa que seja desprovido de interesse. O filme possui uma importância especial para quem deseja acompanhar a fase em que Ladd tentou assumir maior controle sobre sua carreira através da Jaguar Productions. A própria Turner Classic Movies reconhece que, apesar das críticas negativas de Bosley Crowther, admiradores de Ladd e do gênero podem encontrar prazer na produção, particularmente nas cenas de condução de gado e no trabalho do veterano diretor de fotografia John F. Seitz. Seitz havia trabalhado em clássicos como Double Indemnity, The Lost Weekend, Sunset Boulevard e This Gun for Hire, e sua presença dá ao filme uma qualidade visual superior àquela que sua reputação crítica poderia sugerir. Também chama atenção a tentativa de apresentar a construção de uma cidade e de uma nova rota comercial como o verdadeiro objetivo do herói, em vez de simplesmente contar uma história de vingança. Chad Morgan não deseja inicialmente matar seus inimigos; sua experiência na Guerra Civil fez com que rejeitasse a violência. Essa característica dá ao personagem uma dimensão interessante, ainda que o roteiro acabe conduzindo inevitavelmente ao tradicional duelo final. O filme também registra um momento importante da carreira de Alan Ladd, poucos anos depois de Shane e pouco antes de produções como The Proud Rebel e The Badlanders. Assim, embora esteja longe dos grandes clássicos do western, The Big Land permanece uma peça curiosa do cinema de gênero dos anos 1950, especialmente para os admiradores de Ladd e para quem se interessa pela evolução do faroeste americano no período.

Encontro com o Diabo (The Big Land, Estados Unidos, 1957) Direção: Gordon Douglas / Roteiro: David Dortort e Martin Rackin, baseado no livro Buffalo Grass, de Frank Gruber / Elenco: Alan Ladd, Virginia Mayo, Edmond O'Brien, Anthony Caruso, Julie Bishop e John Qualen / Sinopse: Após descobrir que um poderoso comerciante controla o mercado de gado do Missouri, um ex-oficial confederado decide construir uma nova cidade e uma ligação ferroviária no Kansas, enfrentando a violenta reação de seus inimigos.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Homens das Terras Bravas

Homens das Terras Bravas
Depois de trabalhar em “Os Brutos Também Amam” o ator Alan Ladd poderia ter se aposentado do gênero, afinal esse foi um dos mais marcantes filmes de western da história do cinema americano. Depois de fazer algo tão maravilhoso assim ele realmente não precisava mesmo fazer mais nada. Porém para a alegria de seu vasto fã clube o ator resolveu seguir em frente estrelando outros faroestes, mantendo-se fiel ao estilo até o fim de sua carreira. Entre os bons westerns que estrelou esse “Homens das Terras Bravas” é dos mais interessantes. O filme começa com os personagens interpretados por Alan Ladd e Ernest Borgnine presos na famosa prisão de Yuma (sempre citada em filmes de faroeste, basta lembrar do clássico de Glenn Ford). O personagem de Ladd é um engenheiro de minas que foi condenado por ter supostamente roubado uma pepita de ouro numa mina em que trabalhava. Ele alega inocência e diz que tudo foi armação do xerife da cidade que não gostava dele. Já Ernest Borgnine está preso por assassinato. Homem rude, não aceitou levar desaforos para casa. Depois de cumprirem suas penas são finalmente colocados em liberdade.

Peter Van Hoek, vulgo 'The Dutchman' (Alan Ladd) decide voltar então para a cidade onde foi preso. Alega que gosta do local mas na verdade ele tem um plano a seguir em sua mente. Inocente ou não, ele agora quer ir para a desforra e monta um grupo para assaltar a mesma mina em que foi acusado de roubo anos atrás. Para isso conta com a preciosa ajuda de John 'Mac' McBain (Ernest Borgnine), pois afinal já o conhecia da prisão. Completando o trio um especialista em dinamites também entra nos planos do roubo da mina. A idéia é colocar as mãos no ouro, vendê-lo a um homem poderoso da região e saír da cidade o mais rapidamente possível. O problema é que as coisas não saem exatamente conforme foram planejadas.

Filmes sobre roubos sempre mantém o interesse do espectador. Esse aqui se aproveita bem dessa situação. Há o planejamento inicial, a execução do plano e os problemas e adversidades que vão surgindo conforme eles colocam tudo em ação. O personagem de Alan Ladd tem também um atrativo a mais. No começo o espectador é levado a crer em sua inocência, afinal ele jura ser inocente de todas as acusações. Mas conforme o filme avança essa certeza dá lugar a dúvidas sobre seu real caráter. Ladd quase sempre interpretou papéis de homens íntegros, virtuosos nas telas e ver o ator em um personagem assim se torna muito interessante. No final das contas temos aqui uma excelente fusão de gêneros (western e aventura) que certamente não vai decepcionar nem o fã de Alan Ladd e nem muito menos os amantes do gênero. Está bem recomendado.

Homens das Terras Bravas (The Badlanders, EUA, 1958) Direção: Delmer Daves / Roteiro: Richard Collins, baseado na novela de W.R. Burnett / Elenco: Alan Ladd, Ernest Borgnine, Katy Jurado / Sinopse: Após sair da prisão por um crime que jura não ter cometido um engenheiro de minas (Alan Ladd) e um comparsa (Ernest Borgnine) decidem roubar o ouro de uma mina na região seguindo um elaborado plano de ação.

Pablo Aluísio.

O Rebelde Orgulhoso

O Rebelde Orgulhoso 
Aqui temos mais um western clássico. A história se passa após o fim da guerra civil americana. John Chandler (Alan Ladd) se encontra completamente arruinado. Sua fazenda foi queimada pelos ianques, sua esposa foi morta na frente de seu pequeno filho que, traumatizado, nunca mais conseguiu falar. Ex-combatente da confederação, dos estados do sul, ele decide então ir até o norte em busca de uma cura para o garoto. O caminho porém não será fácil, pois ele passa a ser hostilizado por onde passa uma vez que é tratado como “rebelde” apenas por ser sulista, por ter sido um soldado confederado. Na busca por um tratamento para seu filho David (David Ladd), o pai obstinado acaba chegando numa cidadezinha na fronteira entre norte e sul. Lá, como sempre, é alvo de provocações, indo parar na cadeia após trocar socos com uns valentões locais. Tentando lhe ajudar de alguma forma, a fazendeira Lnett Moore (Olivia de Havilland) resolve pagar a fiança em troca do trabalho de Chandler em sua propriedade. O problema é que a fazenda é alvo dos irmãos Burleighs que cobiçam a região para pasto de seu rebanho. Após alguns ataques covardes (onde o bando de bandidos incendeia parte do rancho), Chandler resolve desafiar os criminosos, levando todos para uma disputa final de vida ou morte.

Esse é sem dúvida um dos melhores filmes de western da carreira de Alan Ladd. Com um roteiro que faz lembrar em certos momentos de “Os Brutos Também Amam”, o filme consegue conciliar drama, romance e ação nas doses certas. O ator Alan Ladd novamente incorpora um personagem integro, honrado e honesto que deseja apenas que seu filho volte a falar. Curiosamente o ator mirim David Ladd era de fato o próprio filho do ator, repetindo nas telas aquilo que era na vida real. O garotinho mostra muita desenvoltura em seu papel, criando um vinculo emocional bastante forte com o espectador.

O roteiro é muito bem escrito, e tira proveito de toda a situação com muita eficiência. Para os que gostam de animais, o filme ainda traz um pequeno cão pastor que acaba roubando várias cenas com seu adestramento. A disputa por ele acaba sendo um ponto crucial para todos os personagens na estória. É interessante notar ainda como Alan Ladd foi provavelmente o cowboy mais romântico do western americano em sua fase de ouro no cinema. Todos os seus personagens possuíam algo em comum, pois eram heróis trágicos, errantes, à procura de um lugar para recomeçar a vida (muitas vezes partindo praticamente do zero). O cineasta Michael Curtiz (um dos maiores nomes do cinema clássico americano) soube muito bem aproveitar dessa característica de Ladd aqui, mostrando mais uma vez toda sua elegância e seu talento, em um faroeste realmente muito bom, acima da média. Grande filme. Um belo momento da carreira de Alan Ladd, que aqui surge mais uma vez em sua quintessência.

O Rebelde Orgulhoso (The Proud Rebel, Estados Unidos, 1958) Direção: Michael Curtiz / Roteiro: Joseph Petracca, Lillie Hayward / Elenco: Alan Ladd, Olivia de Havilland, Dean Jagger, David Ladd, Harry Dean Stanton, John Carradine / Sinopse: Após o fim da guerra civil dos Estados Unidos, um ex-soldado confederado se arrisca a ir até o norte em busca de tratamento para seu filho que ficou sem falar após passar por um grande trauma. No caminho acaba se envolvendo numa luta por terras numa pequena cidade na fronteira entre norte e sul.

Pablo Aluísio.

Encontro com o Diabo

Título no Brasil: Encontro com o Diabo
Título Original: The Big Land
Ano de Lançamento: 1957
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Gordon Douglas
Roteiro: Frank Gruber, David Dortort
Elenco: Alan Ladd, Virginia Mayo, Edmond O'Brien, Anthony Caruso, Julie Bishop, John Qualen

Sinopse:
Após a Guerra Civil, a amargura permaneceu entre sulistas e nortistas. A fim de abastecer as cidades do leste com carne bovina, os ex-confederados do Texas levam seus rebanhos para as ferrovias. Depois de uma longa e difícil viagem de gado pelas Bad Lands, o ex-oficial confederado Chad Morgan (Alan Ladd) e seus parceiros chegam a uma ferrovia no Missouri, onde um comprador de gado corrupto e seu grupo de pistoleiros se oferecem para comprar os rebanhos dos texanos por uma quantia irrisória. Não demora muito e uma situação de conflito surge entre todos eles.

Comentários:
Depois do sucesso do filme "Os Brutos Também Amam" o ator Alan Ladd iria retornar ao gênero western, mais cedo ou mais tarde. E o fez em grande estilo com esse filme realmente muito bom. Seu personagem seguia na mesma linha, era um cowboy calmo, cortês, educado, até mesmo fino e elegante ao seu próprio modo, mas que sabia agir com armas de fogo quando isso se tornava necessário. Ele é um criador de gado, homem íntegro e honesto, que acaba tendo que lidar com um bando de facínoras que está obviamente de olho em sua manada. Se der o passo errado e mostrar algum tipo de fraqueza, será morto e seu gado roubado. O roteiro do filme, muito bom aliás, deixa claro que apesar do fim da guerra civil os problemas entre nortistas e sulistas continuavam, pois todos estavam à flor da pele, prestes a explodir em acessos de fúria e violência extrema, ao menor sinal de provocação mútua. Além disso os sulistas se ressentiam demais por terem perdido a guerra, o que tornava tudo ainda mais explosivo. Um excelente filme de western. Ótimo item para se ter em sua coleção pessoal de filmes de faroeste clássico. 

Pablo Aluísio.


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Josey Wales - O Fora da Lei

"Josey Wales - O Fora da Lei" é um clássico faroeste da carreira do ator e diretor Clint Eastwood. Na história temos o protagonista, Josey Wales (Clint Eastwood), um pequeno rancheiro que vive da terra ao lado de sua esposa e seu filho. Sua vida passa por uma tragédia pessoal quando um grupo de soldados da União entra em sua propriedade e mata sua mulher e o garoto pelo simples fato da família ser sulista do Missouri. Não contentes, ainda colocam fogo na casa do rancho. Apunhalado, Josey não consegue salvar sua amada família. Depois de recuperado, entra nas fileiras das tropas confederadas para lutar contra o exército que massacrou seus familiares. Lá cria fama de bom atirador e soldado valente. Ao final da guerra civil fica sem rumo certo. mas não entrega suas armas ao inimigo, o que faz com que seja caçado e procurado por caçadores de recompensas e oficiais do exército americano pelos lugares mais inóspitos do oeste americano."The Outlaw Josey Wales" é um ótimo western, bem acima inclusive de outros faroestes clássicos estrelados por Clint Eastwood. Seu personagem Josey Wales é muito bem escrito. Um veterano confederado que entra na guerra para se vingar das tropas federais. Se negando a se render, ele leva em frente sua própria guerra pessoal contra os soldados da União. O personagem assim funciona como um símbolo do sentimento sulista e confederado dos Estados Unidos, que com muito orgulho jamais aceitou a derrota no conflito mais sangrento da história americana.

Clint Eastwood também capricha na caracterização de seu papel, fazendo um sujeito de poucas palavras. mas rápido no gatilho que tem um hábito horrível, mas muito divertido, de sair cuspindo fumo mascado em todo lugar! Até o pobre cachorrinho que o segue pelo deserto vira alvo! Ao seu lado brilha a honesta interpretação de Chief Dan George que interpreta um velho índio, cansado de guerra, desiludido pelas mentiras contadas pelo homem branco ao longo de todas aquelas décadas. Esse foi o sexto filme dirigido por Clint Eastwood, produzido por sua própria companhia de cinema, a Malpaso Company. Impossível negar que ele já mostra uma maturidade incrível na direção, não deixando o filme cair no marasmo ou no lugar comum em nenhum momento. O roteiro escrito pelo futuro cineasta Philip Kaufman de "Os Eleitos" e "A Insustentável Leveza do Ser", entre outros, certamente ajuda muito para o belo resultado final. É um texto muito bem escrito, com ótimo desenvolvimento, sem qualquer erro em seu enredo. Mesmo cenas mais fortes como a da tentativa de estupro coletivo promovida por um grupo de comancheros em cima da personagem de Sondra Locke (que se tornaria mulher de Clint na vida real) não soam fora do contexto ou desproporcionais. Tudo está em seu devido lugar. Em suma, um grande faroeste que não pode faltar na coleção de nenhum fã do gênero. Clint Eastwood mais uma vez está perfeito no velho oeste. Não deixe de assistir.

Josey Wales - O Fora da Lei
(The Outlaw Josey Wales, Estados Unidos,  1976) Estúdio: Warner Bros, Malpaso Company / Direção: Clint Eastwood / Roteiro: Philip Kaufman, baseado no livro de Forrest Carter / Elenco: Clint Eastwood, Sondra Locke, Chief Dan George, Bill McKinney / Sinopse: Josey Wales é um homem em busca de vingança. Após a morte de sua família, de forma covarde, ele parte para se vingar de todos os que cometeram esse crime. Todos os soldados da União devem pagar. Filme indicado ao Oscar na categoria de melhor música (Jerry Fielding).

Pablo Aluísio.

Os Abutres Têm Fome

Inicialmente o projeto foi desenvolvido pela Universal para ser estrelado pelo casal Richard Burton e Elizabeth Taylor. O problema é que Liz pediu um cachê considerado absurdo pelo estúdio para fazer o filme. Como a Universal não estava disposta a pagar um milhão de dólares para que a atriz interpretasse a freirinha Sara, o filme tomou novos rumos. Saiu Richard Burton e entrou Clint Eastwood, que vinha de uma série de faroestes bem sucedidos ao lado de Sergio Leone. Elizabeth Taylor também foi substituída por Shirley MacLaine, que realmente adorou o roteiro. Penso que foi a escolha ideal, pois dificilmente o público veria Elizabeth Taylor como uma missionária, uma freira, perdida no meio do deserto mexicano. A atriz Shirley MacLaine então assumiu o papel da irmã Sara, que tentando levar a palavra de Cristo aos rincões mais distantes do México acabava ficando no meio do fogo cruzado da guerra que se desenvolvia naquele país. 

De um lado o povo mexicano lutando por sua liberdade, em um movimento rebelde conhecido como "Juanistas". Do outro lado as tropas de ocupação da França, tentando transformar o país em mais uma de suas colônias. Clint Eastwood interpretou um pistoleiro chamado Hogan, que era acima de tudo um mercenário, disposto a vender sua "força de trabalho" a quem pagasse mais. Após fazer um trato com um coronel Juarista, ele entrava no conflito ao lado dos rebeldes. O grande objetivo seria tomar uma importante guarnição francesa na região, usando para isso uma passagem secreta entre um monastério católico e o forte francês. Apesar de toda a trama passada nesse contexto histórico da guerra de libertação do México, o fato é que as melhores cenas de todo o filme se desenvolvem na relação entre a doce freira católica Sara (MacLaine) e o durão e rústico Hogan (Eastwood). Um choque de personalidades diferentes que rende ótimos momentos no filme. Eles se encontram por acaso no meio do deserto e o pistoleiro, mesmo sendo um cara de poucos amigos, resolve ajudar a freirinha. Há ótimos diálogos entre eles, o que ajuda a manter o filme interessante. Como não poderia deixar de ser, há toda uma tensão sexual entre os dois embora isso seja, por causa das convicções religiosas dela, algo impossível de acontecer.

Clint Eastwood e Shirley MacLaine estão excepcionalmente bem no filme, mostrando muito entrosamento e amizade em cena. Anos depois a atriz revelaria que ficara encantada com o México (onde o filme foi rodado), pois apesar da população ser extremamente pobre, era também um povo de muita fé e esperança em um país melhor. O diretor Don Siegel, em mais uma parceria com o ator Clint Eastwood, também se revela uma ótima escolha pois conseguiu equilibrar bem um roteiro bem escrito, baseado na amizade conflituosa entre a freira e o bandoleiro, com boas cenas de ação no final do filme. Fica então mais essa dica, "Os Abutres Têm Fome", mais um bom momento de Clint Eastwood no western.

Os Abutres Têm Fome (Two Mules for Sister Sara, Estados Unidos, 1970) Direção: Don Siegel / Roteiro: Budd Boetticher, Albert Maltz / Elenco: Shirley MacLaine, Clint Eastwood, Manuel Fábregas / Sinopse: Pistoleiro e mercenário (Eastwood) encontra com uma freirinha católica (MacLaine) perdida no meio do deserto e resolve lhe ajudar, bem no meio da guerra de libertação do México da invasão colonial francesa. Filme indicado ao Laurel Awards nas categorias de melhor atriz (Shirley MacLaine) e melhor ator (Clint Eastwood).

Pablo Aluísio.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

O Romântico Defensor

O Romântico Defensor
Cole Armin (Randolph Scott) é um cowboy texano que vai até a cidade de Albuquerque para trabalhar ao lado de seu tio, John Armin (George Cleveland). um bem sucedido homem de negócios na região. Durante a viagem a diligência onde se encontra é assaltada por uma quadrilha de bandidos. Quando finalmente chega em seu destino acaba descobrindo que seu tio John teve participação no roubo. Em pouco tempo tio e sobrinho entram em choque por causa do crime ocorrido, ficando em lados opostos da lei. "Albuquerque" é um western ao velho estilo onde tudo funciona muito bem. O roteiro é caprichado, bem desenvolvido, criando situações ora mais dramáticas, ora mais bem humoradas. O lado romântico também não é deixado de lado e aqui Randolph Scott corteja a mocinha Celia Wallace (Catherine Craig). O elenco de apoio é excepcionalmente bom com destaque para George Cleveland como o tio Armin, um vilão mais cerebral do que visceral (tanto que não pega em armas, apenas planeja de longe formas de prejudicar o seu sobrinho). George 'Gabby' Hayes, um veterano nas telas com quase 200 filmes também está excelente como Juke, um velho barbudo e ranzinza que trabalha para o personagem de Randolph Scott. Ele funciona muito bem como alívio cômico dentro da trama.

"Albuquerque" ficou muito conhecido pelo público americano por causa das inúmeras reprises televisivas ao longo de todos esses anos. Na década de 50 a Paramount, produtora do filme, negociou com a Universal a venda dos direitos autorais de mais de 700 faroestes, todos para serem exibidos no canal NBC no período vespertino. "Albuquerque" fazia parte desse pacote. Passando constantemente na TV norte-americana o filme foi criando uma espécie de intimidade com o público, se tornando uma obra muito conhecida e querida entre os fãs americanos de western. Até no Brasil o filme também foi bem reprisado nos primórdios da TV brasileira. Por aqui quando em sua exibição na extinta TV Tupi a produção recebeu o título pomposo de "O Romântico Defensor". Enfim é isso. "Albuquerque" certamente tem todos os ingredientes que fazem um bom western. Além disso seu clima nostálgico é completamente irresistível. Um faroeste dos bons que merece ser conhecido pelos fãs do gênero.

O Romântico Defensor (Albuquerque, EUA, 1948) Direção: Ray Enright / Roteiro: Gene Lewis baseado no romance "Dead Freight for Piute", de Luke Short / Elenco: Randolph Scott, Barbara Britton, George 'Gabby' Hayes, Lon Chaney Jr, Catherine Craig, George Cleveland / Sinopse: Cole Armin (Randolph Scott) é um cowboy texano que vai até a cidade de Albuquerque para trabalhar ao lado de seu tio, John Armin (George Cleveland). um bem sucedido homem de negócios na região. Durante a viagem a diligência onde se encontra é assaltada por uma quadrilha de bandidos. Quando finalmente chega em seu destino acaba descobrindo que seu tio John teve participação no roubo. Em pouco tempo tio e sobrinho entram em choque por causa do crime ocorrido, ficando em lados opostos da lei.

Pablo Aluísio.

Rua dos Conflitos

Título no Brasil: Rua dos Conflitos
Título Original: Abilene Town
Ano de Produção: 1946
País: Estados Unidos
Estúdio: United Artists
Direção: Edwin L. Marin
Roteiro: Ernest Haycox, Harold Shumate
Elenco: Randolph Scott, Ann Dvorak, Edgar Buchanan, Rhonda Fleming, Lloyd Bridges
  
Sinopse:
1870. A guerra civil deixa rastros de morte e destruição por toda a nação norte-americana. Em Abilene (uma conhecida cidade do velho oeste, famosa por suas belas planícies) o xerife Dan Mitchell (Randolph Scott) tenta colocar ordem e justiça pelas vastas terras da região. O lugar passa por um conflito violento envolvendo colonos e criadores de gado que decidem contratar pistoleiros violentos para impor seu ponto de vista a todos os moradores da cidade.

Comentários:
Um filme estrelado pelo astro do western Randolph Scott atuando como um bravo e honesto xerife do velho oeste já é um bom motivo para se assistir. Some-se a isso o bom roteiro e o elenco de apoio acima da média (que conta inclusive com um jovem Lloyd Bridges como o líder dos colonos) e você terá no mínimo uma boa diversão. Não é uma grande produção, na verdade foi um faroeste de orçamento mediano bancado pela United Artists. O estilo procura ser o de diversão familiar, sem muita violência ou cenas de impacto. Um filme tipicamente produzido para as matinês de cinema que faziam grande sucesso na década de 1940. Há um pouco de romance, com o personagem de Scott disputando o coração de duas mulheres, a garota de um saloon (interpretada por Ann Dvorak) e a de uma jovem mocinha, Rhonda Fleming (bem carismática e diria até encantadora). Enquanto o xerife luta contra os bandidos ainda há espaço para um pouco de música, com um bom número musical a cargo da atriz Ann Dvorak. Tudo um tanto leve e ameno. Essa cidade de Abilene sempre surgia em filmes de faroeste porque historicamente ela foi um centro de carga e descarga de grandes carregamentos de gado. Depois que as manadas eram enviadas para todo o país (em vagões de trem), os cowboys, pistoleiros e todos os tipos violentos que povoavam o oeste americano ficavam na cidade, pelos saloons, causando todos os tipos de confusões. Ser xerife de um lugar assim definitivamente não era algo fácil. O diretor Edwin L. Marin trabalhou em vários filmes ao lado de Randolph Scott e morreu precocemente, com apenas 52 anos de idade. Uma perda lamentada muito pelo ator que perdeu um de seus mais leais colegas de trabalho.

Pablo Aluísio.

Randolph Scott e o Velho Oeste - Parte 10

Depois do sucesso comercial de "O Último dos Moicanos" o ator Randolph Scott deu um tempo nas fitas de faroeste. E isso surpreendeu muita gente já que todos esperavam que ele iria cair com tudo no gênero para aproveitar o sucesso. Apenas algum tempo depois é que ele voltaria a usar chapéu de cowboy, botas e esporas para montar seu belo cavalo branco. Isso voltaria a acontecer em "A Heroína do Texas" (The Texans), boa produção dirigida pelo cineasta  James P. Hogan. O que chamava bastante a atenção aqui é que todas as atenções do roteiro iam para a mocinha do filme e não para o herói. Algo raro em um estilo cinematográfico tão voltado para o público masculino. Era algo novo e inovador, algo que poucos tinham feito em Hollywood naquele período histórico do cinema americano.

A estrelinha do filme, a atriz Joan Bennett, foi até mesmo creditada na frente do astro Randolph Scott. isso mostrava também como ele poderia ser generoso com as colegas de profisssão. Ele vinha de um sucesso de bilheteria e poderia muito bem calçar seu ego de astro de western em Hollywood e exigir seu nome em primeiro lugar nos créditos do filme. Porém não fez isso. Foi bem humilde e companheiro, sendo usado até mesmo como escada da jovem atriz. A sinopse era padrão: "Após a Guerra Civil, um ex-soldado confederado enfrentava novas batalhas, incluindo os membros de uma quadrilha de bandidos que tentavam roubar uma jovem indefesa".

Após esse filme Scott atuou em um drama chamado "Almas sem Rumo". Um bom filme, mas também um pouco cheio de clichês melodramáticos típicos daquele período. Isso porém logo foi esquecido porque ele voltaria ao velho oeste em um grande clássico do cinema, "Jesse James". Esse é considerado um dos melhores filmes de western já feitos. Dirigido pelo ótimo Henry King, trazendo um excelente elenco que contava com Tyrone Power e Henry Fonda como os irmãos foras-da-lei James, esse é um daqueles filmes que até hoje são debatidos e reprisados por fãs de faroeste clássico em sua era de ouro.

Em uma produção com tantos astros e estrelas, Randolph Scott acabou sendo escalado para um personagem secundário, porém não menos importante. Will Wright. Porém o mais importante desse filme é que o ator percebeu que o segredo para fazer fortuna em Hollywood era produzir seus próprios filmes. Ele teve a ideia, justamente nesse set de filmagens, de começar a ele mesmo produzir uma série de filmes de cowboy, algo que o tornaria um dos atores mais ricos de Hollywood nos anos seguintes.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Céu Mandou Alguém

Título no Brasil: O Céu Mandou Alguém
Título Original: 3 Godfathers
Ano de Produção: 1948
País: Estados Unidos
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)
Direção: John Ford
Roteiro: Laurence Stallings, Frank S. Nugent
Elenco: John Wayne, Pedro Armendáriz, Harry Carey Jr

Sinopse:
Três bandoleiros liderados por Robert Hightower (John Wayne) decidem roubar um banco na pequenina cidadezinha de Welcome no Arizona. Na fuga acabam sem água, perdidos no meio de um dos desertos mais hostis dos Estados Unidos. Lá encontram uma carruagem abandonada, com uma mulher grávida, prestes a ter um filho. Após ajudar no nascimento da criança a mãe morre. Agora os três assaltantes tentarão sobreviver naquele deserto implacável, tentando fugir do xerife e seus assistentes, ao mesmo tempo em que tentam manter o recém-nascido vivo.

Comentários:
Esse é certamente um dos mais interessantes e menos badalados filmes do mestre John Ford (1894 - 1973). O filme começa como todos os westerns da época, com um trio de bandidos de olho no banco de uma cidadela perdida no meio do deserto. Segue-se a perseguição do xerife e então o diretor dá uma guinada e tanto no enredo, fazendo daqueles três assaltantes pessoas de bom coração, que ajudam uma jovem mãe a ter seu filho no meio do deserto. Os três personagens, um americano (Wayne), um mexicano (Pedro Armendáriz) e um jovem pistoleiro conhecido como 'The Abilene Kid' (Harry Carey Jr.) mostram seu lado mais humano, mesmo após terem cometido um crime. O enredo não disfarça uma conotação levemente religiosa ao comparar aqueles três bandidos, os padrinhos do menino recém nascido (daí o título em inglês, 3 Godfathers), com a própria natividade do menino Jesus (com direito até mesmo a uma estrela brilhante no céu). Como um dos próprios personagens fala, eles seriam versões modernas dos três reis magos! Ford também utiliza a natureza do deserto como um elemento opressor sobre todos os personagens, tanto os perseguidos, como os perseguidores. Essa linguagem serve para demonstrar a pequenez do ser humano diante da natureza. O filme no final das contas, embora pouco conhecido, é mais uma das provas da genialidade de um cineasta realmente diferente, marcante, que deixou sua marca para sempre na história da sétima arte.

Pablo Aluísio.

O Anjo e o Malvado

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Título no Brasil: O Anjo e o Malvado
Título Original: Angel and the Badman
Ano de Lançamento: 1947
País: Estados Unidos
Estúdio: Republic Pictures
Direção: James Edward Grant
Roteiro: James Edward Grant
Elenco: John Wayne, Gail Russell, Harry Carey

Sinopse:
Quirt Evans (John Wayne) é um cowboy e pistoleiro que após ser perseguido no deserto por inimigos que querem sua morte, consegue escapar com a ajuda de uma jovem chamada Penelope Worth (Russell). Ela o leva até uma comunidade religiosa Quaker. Recuperado, Evans precisa decidir se vai voltar em busca dos homens que o caçaram no deserto ou se vai esquecer tudo, começando uma nova vida. 

Comentários:
Depois de fazer alguns filmes para o esforço de guerra (da segunda guerra mundial, obviamente) e até ter arriscado papéis de galã em filmes românticos, John Wayne decidiu que deveria voltar para as origens de sua carreira. Ele contratou o roteirista James Edward Grant e pediu que ele escrevesse uma história que lembrasse os enredos de seus primeiros filmes. Tudo bancado pelo próprio John Wayne através de sua recém criada companhia cinematográfica (a John Wayne Productions). Gostou tanto do roteiro que resolveu colocar o próprio Grant para dirigir o filme (muito embora o próprio Wayne fosse o diretor de fato dessa produção). O resultado ficou apenas regular. Não havia como voltar ao passado, a um estilo de cinema que já havia sido ultrapassado. Wayne tinha saudades de seus filmes da década de 1930, mas aquele já era um outro momento histórico, do pós-guerra. As ilusões e a inocência já não existiam mais. De qualquer forma, dentro de suas limitações, poderíamos até dizer que é um bom bang-bang, muito embora fique bem longe dos grandes filmes do ator. 

Pablo Aluísio.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Inferno nos Trópicos

Título no Brasil: Inferno nos Trópicos
Título Original: Tycoon
Ano de Lançamento: 1947
País: Estados Unidos
Estúdio: RKO Radio Pictures
Direção: Richard Wallace
Roteiro: Borden Chase, John Twist
Elenco: John Wayne, Anthony Quinn, Laraine Day, Cedric Hardwicke, Judith Anderson, James Gleason

Sinopse:
O engenheiro Johnny Munroe (John Wayne) é contratado para construir um túnel ferroviário através de uma montanha localizada na América do Sul. O desafio é criar uma estrada para chegar às minas da região. Sua tarefa fica complicada e sua ética fica comprometida quando ele acaba se apaixonando pela filha de seu chefe nesse projeto ousado e desafiador. 

Comentários:
A RKO estava em dificuldades financeiras, por isso voltou a contratar John Wayne para estrelar essa aventura passada na América do Sul. O próprio ator aceitou o convite de bom grado pois tinha uma dívida de gratidão com a RKO desde o começo de sua carreira. O filme é interessante, bem produzido e com roteiro um pouco irregular pois apresenta elementos que no meu ponto de vista seriam desnecessários nesse tipo de história. Eu considerei a parte romântica do filme um pouco valorizada acima do que era esperado. Alguém que ia atrás de um filme de aventuras com John Wayne não estava necessariamente esperando uma atuação de galã romântico por parte dele. Aliás ele nunca funcionou direito nesse tipo de papel. Talvez por essa razão o filme não tenha sido bem sucedido nas bilheterias de cinema na época de seu lançamento. Como foi uma produção muito cara, acabou trazendo prejuízo para a já problemática vida financeira da RKO que algum tempo depois iria acabar indo á falência, fechando suas portas definitivamente. 

Pablo Aluísio.

Dakota

Dakota
Esse foi o filme que trouxe John Wayne de volta ao gênero cinematográfico que o havia consagrado, o Western, mais conhecido entre os brasileiros como Faroeste. Wayne tinha se afastado por dois anos dos filmes de cowboy. Nesse período ele se dedicou aos filmes de guerra, afinal de contas o mundo passava pela Segunda Guerra Mundial. Sem condições de servir no campo de batalha do mundo real, o ator resolveu se empenhar no esforço de guerra através dos filmes em que atuava. O resultado comercial para ele foi muito bom, mas os fãs que adoravam seus filmes de faroeste tinham sido deixados para trás. 

Todos os dias chegavam cartas dos fãs aos estúdios pedindo por mais filmes de John Wayne no gênero western. Só que o ator realmente, naquele momento histórico, estava atuando em outro tipo de filme. Essa produção realizada em 1945 vinha justamente para atender os anseios de seu público. É um filme muito bom, onde Wayne interpreta um tipo de personagem mais maduro e mais centrado em defender os valores que ele prezava. Com figurino mais conservador, usando um grande chapéu branco cheio de estilo em sutil homenagem ao velho cowboy Tom Mix, esse faroeste sem dúvida foi um dos bons momentos da carreira de Wayne, embora hoje em dia esteja um tanto esquecido. 

Dakota (Dakota, Estados Unidos, 1945) Direção: Joseph Kane / Roteiro: Lawrence Hazard, Howard Estabrook, Carl Foreman / Elenco: John Wayne, Vera Ralston, Walter Brennan / Sinopse: A história do filme se passa em 1871 quando um grupo de ricos homens de negócios entram em choque com fazendeiros do território de Dakota, no oeste dos Estados Unidos. 

Pablo Aluísio.

Os Filmes de Faroeste de John Wayne - Parte 18

A década de 1950 chegou e John Wayne não sabia, mas iria fazer seus filmes mais importantes nesses anos que viriam. O curioso é que por essa fase o próprio Wayne já falava em se aposentar, comprar um rancho no sul da Califórnia e se estabelecer por lá. Não estava mais muito empolgado com o cinema. Já havia ganho dinheiro suficiente para cuidar de um próspero rancho de cavalos. Era o seu principal plano. Ter um rancho com os melhores cavalos para alugar o seu plantel para os estúdios de cinema. No set de filmagens de seus filmes John Wayne estava sempre repetindo essa mesma ladainha. Que estava velho e cansado, que iria comprar um rancho para criar cavalos. 

A história chegou até os ouvidos do diretor John Ford. Ele tinha uma relação de amizade tão próxima de John Wayne que beirava a insanidade. Eles gostavam de se provocar. Ford assim enviou um telegrama para Wayne dizendo: "Ouvi dizer que você está querendo se aposentar. Deixa de falar asneiras, seu Hipopótamo. Quero você em meu próximo filme!". Ao ler a mensagem Wayne soltou uma grande gargalhada e mandou a resposta: "Tudo certo, caolho! Basta me dizer onde vai ser feito o filme. Estarei lá!"

O filme seria mais um grande clássico da dupla John Ford - John Wayne. Intitulado "Rio Grande" seria mais um filme da linha de produções de western que tinham como tema a cavalaria americana. Anos depois esse filme seria classificado como um dos mais importante da trilogia da cavalaria americana na conquista do Oeste selvagem do mestre Ford. 

O curioso é que o personagem de John Wayne era muito mais velho do que o próprio ator. Acabou sendo mais uma piada para John Ford que lhe disse no primeiro dia de filmagem: "Já que você vive falando como um velho, vou te dar um personagem de velho para fazer nesse filme!". Para completar, o personagem de Wayne iria usar um vasto bigode, típico do período histórico em que a história se passava. John Wayne odiava bigodes, mas John Ford aproveitou para ter mais um elemento de humor com Wayne. Ele lhe disse: "Ou usa bigode ou está fora do filme!". Piadas à parte o filme foi um grande sucesso de público e crítica, demonstrando mais uma vez que quando os dois amigos se reuniam geralmente resultava em mais uma grande obra-prima do cinema.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 28 de julho de 2026

William S. Hart

William S. Hart 
William S. Hart foi um dos mais importantes atores, roteiristas, produtores e diretores da era do cinema mudo, sendo considerado um dos grandes responsáveis por estabelecer o gênero western como um dos pilares da indústria cinematográfica norte-americana. Nascido em 6 de dezembro de 1864, em Newburgh, no estado de Nova York, Hart iniciou sua carreira artística no teatro, onde ganhou experiência interpretando obras de William Shakespeare e outras peças clássicas. Antes de chegar ao cinema, percorreu os Estados Unidos com companhias teatrais e desenvolveu uma reputação como ator dramático de grande intensidade. Quando ingressou na indústria cinematográfica, em 1914, já possuía uma maturidade artística incomum para a época. Essa experiência fez com que seus filmes apresentassem interpretações mais naturais e menos exageradas do que era habitual no cinema mudo. Sua figura alta, o rosto marcado e a postura séria transmitiam credibilidade ao representar pistoleiros, xerifes e homens do Velho Oeste. Em poucos anos, tornou-se uma das maiores estrelas de Hollywood e um dos artistas mais bem pagos da década de 1910. Seu nome passou a ser associado à autenticidade e ao realismo nos filmes de faroeste.

Diferentemente de muitos colegas que interpretavam cowboys heroicos e aventureiros idealizados, William S. Hart procurava retratar personagens moralmente complexos, frequentemente divididos entre a violência e o desejo de redenção. Seus filmes mostravam um Oeste mais duro, onde as consequências das escolhas dos personagens eram tratadas com seriedade. Hart fazia questão de utilizar cenários naturais sempre que possível e pesquisava costumes, roupas e armamentos para tornar suas produções historicamente convincentes. Essa preocupação com o realismo fez dele uma referência para o gênero, influenciando gerações posteriores de cineastas e atores. Entre seus trabalhos mais importantes estão "The Bargain" (1914), "Hell's Hinges" (1916), "The Aryan" (1916), "Wild Bill Hickok" (1923) e "Tumbleweeds" (1925). Em muitos desses filmes, também participou da produção e do desenvolvimento das histórias, garantindo que sua visão artística fosse preservada. Sua abordagem diferenciada contribuiu para elevar o western de simples entretenimento para uma narrativa de grande força dramática. O público reconhecia em Hart um herói imperfeito, mas profundamente humano.

Durante o auge de sua carreira, William S. Hart foi um dos maiores astros da Paramount Pictures e de outras produtoras importantes do período. Seus filmes alcançavam enorme sucesso comercial nos Estados Unidos e também eram distribuídos internacionalmente, ajudando a consolidar a imagem do cowboy americano ao redor do mundo. O ator tornou-se um dos primeiros grandes ídolos do cinema mundial, conquistando uma base fiel de admiradores. Sua influência foi tão significativa que muitos dos códigos narrativos utilizados posteriormente pelos westerns tiveram origem em suas produções. Hart também valorizava os cavalos e os animais utilizados em cena, mantendo uma relação de respeito com eles durante as filmagens. Seu perfeccionismo frequentemente aumentava o tempo de produção, mas também resultava em obras visualmente marcantes e tecnicamente avançadas para a época. Apesar do enorme sucesso, a chegada do cinema sonoro modificou rapidamente a indústria cinematográfica. Como aconteceu com diversos astros do cinema mudo, sua carreira perdeu força no final da década de 1920.

Após se afastar das telas, William S. Hart dedicou-se à escrita e à preservação da memória do Velho Oeste. Em 1929 publicou sua autobiografia, "My Life East and West", na qual relatou sua trajetória artística e suas experiências durante a formação da indústria cinematográfica. Em seus últimos anos, viveu em sua propriedade em Newhall, Califórnia, cercado por uma vasta coleção de objetos históricos relacionados ao Oeste americano. O local, conhecido atualmente como William S. Hart Museum, preserva parte de seu legado e reúne documentos, figurinos, armas, pinturas e lembranças de sua carreira. Hart também foi um defensor da conservação da natureza e demonstrava grande interesse pela história da expansão para o oeste dos Estados Unidos. Mesmo aposentado, permaneceu sendo uma figura respeitada em Hollywood, frequentemente homenageado por sua contribuição ao cinema. Faleceu em 23 de junho de 1946, aos 81 anos, deixando uma carreira com dezenas de filmes que ajudaram a definir a identidade do western clássico.

O legado de William S. Hart permanece extremamente relevante para a história do cinema. Muitos estudiosos o consideram o primeiro grande astro do western realista e um dos artistas que transformaram esse gênero em uma forma respeitada de narrativa cinematográfica. Cineastas como John Ford, Howard Hawks e atores como John Wayne reconheceram a importância da tradição construída por Hart, ainda que cada um tenha desenvolvido seu próprio estilo. Sua preocupação com autenticidade, profundidade psicológica e qualidade narrativa influenciou diretamente a evolução dos filmes de faroeste ao longo do século XX. Atualmente, suas produções são restauradas por arquivos especializados e estudadas em universidades e cinematecas como exemplos fundamentais da linguagem do cinema mudo. Embora seu nome seja menos conhecido pelo grande público contemporâneo, sua contribuição permanece essencial para compreender a formação de Hollywood e o desenvolvimento do western como um dos gêneros mais populares da história do cinema. William S. Hart continua sendo lembrado como um verdadeiro pioneiro, cuja visão artística ajudou a moldar a imagem do Velho Oeste que permanece viva no imaginário popular até os dias de hoje.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

Terras em Disputa

Terras em Disputa
O último filme estrelado por William S. Hart foi Tumbleweeds, lançado em 1925, considerado um dos grandes clássicos do cinema mudo e também a despedida do ator das telas. A produção foi inspirada nos acontecimentos históricos da Corrida por Terras de Oklahoma, em 1889, quando milhares de colonos disputaram propriedades recém-abertas pelo governo norte-americano. No filme, Hart interpreta Don Carver, um cowboy solitário que acaba se envolvendo com uma jovem fazendeira e precisa enfrentar rivais, conflitos de terra e dilemas morais em meio à expansão do Oeste. Fiel ao estilo que consagrou sua carreira, Hart apresenta um protagonista íntegro, corajoso e profundamente humano. O filme foi elogiado pela grandiosidade das cenas da corrida por terras, pela autenticidade da ambientação e pelo realismo característico de seus westerns. Embora tenha obtido boa recepção do público em seu lançamento, chegou em um momento em que o cinema passava por grandes transformações, e a popularidade dos astros do cinema mudo começava a diminuir. Ainda assim, "Tumbleweeds" consolidou-se como uma despedida digna de um dos maiores pioneiros do gênero western.

Com o rápido avanço da tecnologia cinematográfica e a chegada dos filmes sonoros poucos anos depois, "Tumbleweeds" acabou se tornando um marco do encerramento de uma era. Os críticos da época destacaram a habilidade de William S. Hart em construir personagens moralmente complexos e sua preocupação em representar o Velho Oeste de forma historicamente convincente. Décadas mais tarde, historiadores e estudiosos passaram a considerar a obra uma das melhores produções do western silencioso. Em 1939, Hart voltou ao filme para narrar uma nova introdução sonora, apresentando a obra às novas gerações e explicando o contexto histórico da história. Essa versão contribuiu para preservar o longa quando muitos filmes mudos estavam sendo perdidos. Atualmente, "Tumbleweeds" é frequentemente citado entre os westerns mais importantes da década de 1920 e é lembrado como o testamento artístico de William S. Hart. Seu realismo, sua direção cuidadosa e a grandiosidade das sequências de ação continuam impressionando pesquisadores e admiradores do cinema clássico, reforçando a importância do ator na consolidação do faroeste como um dos gêneros mais populares da história do cinema.

Terras em Disputa Título original: Tumbleweeds | Título no Brasil: Tumbleweeds (também conhecido em algumas exibições como Terras em Disputa) | Ano de lançamento: 1925 | País: Estados Unidos | Gênero: Western, Drama | Direção: King Baggot (com supervisão artística de William S. Hart) | Produção: William S. Hart | Roteiro: C. Gardner Sullivan, baseado na história de Hal G. Evarts | Elenco principal: William S. Hart, Barbara Bedford, Lucien Littlefield, J. Gordon Russell e Richard Neill | Fotografia: Joseph H. August | Distribuição: Paramount Pictures | Duração: aproximadamente 80 minutos | Idioma original: Filme mudo, com intertítulos em inglês.

Erick Steve. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Faroeste em seus Primórdios - Parte 3

O gênero western está entre os mais antigos e importantes da história do cinema de Hollywood, tendo surgido praticamente junto com a própria indústria cinematográfica norte-americana. Ainda no período do cinema mudo, produtores perceberam que as histórias ambientadas na fronteira do Velho Oeste despertavam enorme curiosidade do público, reunindo elementos como aventura, ação, paisagens grandiosas, conflitos entre a lei e o crime e personagens marcantes. Um dos marcos iniciais foi The Great Train Robbery (1903), dirigido por Edwin S. Porter, considerado por muitos historiadores como o primeiro grande western da história. Com pouco mais de dez minutos de duração, o filme apresentou uma narrativa dinâmica, utilizando técnicas inovadoras de montagem e enquadramento que influenciariam toda a linguagem cinematográfica. Seu enorme sucesso comercial demonstrou que o público estava disposto a pagar para assistir histórias sobre assaltantes, xerifes, cowboys e a conquista do Oeste americano. A partir desse momento, os westerns passaram a ser produzidos em grande quantidade, transformando-se rapidamente em um dos principais produtos da nascente indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Embora ainda fossem produções simples, lançaram as bases para um dos gêneros mais duradouros da história do cinema.

Nos anos seguintes, os estúdios perceberam que os espectadores voltavam aos cinemas não apenas pelas histórias, mas também pelos intérpretes que davam vida aos heróis do Oeste. Assim surgiram os primeiros grandes astros do western, que se tornaram verdadeiras celebridades do cinema mudo. O mais famoso deles foi William S. Hart, conhecido por interpretar cowboys sérios, honestos e realistas, muito diferentes dos aventureiros exagerados que apareciam em produções anteriores. Hart buscava autenticidade em suas interpretações e frequentemente utilizava figurinos e equipamentos inspirados na vida real dos antigos vaqueiros do Oeste. Outro nome fundamental foi Tom Mix, cuja imagem contrastava com a de Hart. Mix interpretava heróis carismáticos, sorridentes e extremamente habilidosos com cavalos, cordas e armas, protagonizando cenas de ação espetaculares que encantavam crianças e adultos. Também merece destaque Broncho Billy Anderson, considerado um dos primeiros grandes ídolos do gênero, tendo estrelado centenas de curtas-metragens nas primeiras décadas do século XX. Esses pioneiros ajudaram a estabelecer o arquétipo do cowboy heroico, figura que se tornaria um dos maiores símbolos da cultura popular norte-americana.

O crescimento da popularidade dos westerns ocorreu de forma extremamente rápida entre as décadas de 1910 e 1920. Os filmes eram relativamente baratos de produzir, pois utilizavam cenários naturais do oeste americano, poucas construções cenográficas e elencos menores do que os exigidos por grandes dramas históricos. Além disso, apresentavam histórias de fácil compreensão, recheadas de perseguições a cavalo, duelos, assaltos a bancos, ataques de bandidos e resgates heroicos, elementos que agradavam públicos de diferentes idades e classes sociais. Os exibidores perceberam que os westerns garantiam salas cheias e passaram a solicitá-los em grande quantidade aos estúdios. Em pouco tempo, praticamente todas as grandes companhias de Hollywood mantinham unidades especializadas na produção desse tipo de filme. Muitos longas alcançavam arrecadações expressivas para os padrões da época, tornando-se sucessos de bilheteria e incentivando investimentos cada vez maiores. O gênero também encontrou grande aceitação fora dos Estados Unidos, sendo exportado para diversos países e contribuindo para a expansão internacional de Hollywood como principal centro da produção cinematográfica mundial.

Durante a década de 1920, o western deixou de ser apenas entretenimento popular para ganhar prestígio artístico. Diretores passaram a investir em narrativas mais elaboradas, fotografia sofisticada e personagens psicologicamente mais complexos. Entre os cineastas responsáveis por essa evolução destacou-se John Ford, que anos mais tarde seria reconhecido como o maior diretor da história do gênero. A consolidação definitiva ocorreu com a chegada do cinema sonoro no final da década de 1920 e início dos anos 1930, quando os tiros, os cascos dos cavalos, os diálogos e as trilhas sonoras ampliaram ainda mais o impacto das produções. Foi nesse período que começaram a surgir novas estrelas, preparando o terreno para nomes como John Wayne, Gary Cooper, Randolph Scott e Henry Fonda, que dominariam as telas nas décadas seguintes. Paralelamente, os estúdios investiam em campanhas publicitárias cada vez maiores, transformando os westerns em verdadeiros eventos cinematográficos. O público passou a identificar o gênero como um espetáculo de ação e aventura, consolidando sua posição entre os maiores sucessos comerciais de Hollywood.

O extraordinário sucesso dos primeiros westerns exerceu profunda influência sobre toda a história do cinema. Eles ajudaram a definir a linguagem narrativa de Hollywood, popularizaram o conceito de astro cinematográfico e demonstraram que determinados gêneros poderiam atrair públicos fiéis por décadas. Além do êxito financeiro, essas produções construíram uma visão mitificada da expansão para o Oeste, criando personagens lendários como o cowboy solitário, o xerife incorruptível e o fora da lei carismático, figuras que atravessaram gerações e continuam presentes na cultura popular. Historiadores do cinema frequentemente destacam que o western foi o primeiro gênero verdadeiramente internacional produzido pelos Estados Unidos, influenciando cineastas em diversos países e inspirando movimentos como o western italiano das décadas de 1960 e 1970. Críticos da Variety, do The New York Times e da revista Sight & Sound frequentemente apontam que o western foi decisivo para consolidar Hollywood como a principal indústria cinematográfica do mundo, graças à combinação de histórias universais, grandes astros e enorme apelo popular. O legado desses primeiros filmes permanece vivo até hoje, sendo reconhecido como um dos pilares fundamentais da história do cinema mundial.

O Faroeste em seus primórdios - Parte 2

Provavelmente o primeiro grande astro do cinema no gênero western tenha sido Tom Mix. De origem humilde (seu pai era um trabalhador comum, um lenhador), Mix não tinha a menor habilidade para atuar bem, porém já tinha experiência no mundo dos espetáculos circenses, pois havia trabalhado muitos anos no circuito wild west, onde artistas de circo se passavam por cowboys e índios do velho oeste.

A novidade vinha do fato de que agora tudo poderia ser capturado em filme. Ao invés de excursionar por todo o país em shows itinerantes, agora era possível fazer apenas uma apresentação, filmar e depois distribuir cópias por todo o país em exibições a preços promocionais. Era a invenção do cinema como negócio lucrativo, como indústria. Para Tom Mix, o primeiro grande cowboy das telas de cinema, não poderia haver nada melhor.

Os roteiros desses primeiros filmes de western, ainda na era do cinema mudo, não primavam pela originalidade. Na verdade eram meras adaptações dos shows de oeste selvagem. Havia basicamente dois ou três personagens centrais. O mocinho, o vilão e a mocinha. Os índios estavam na tela apenas para atacar os pioneiros brancos, que eram covardemente assassinados. Esse selvagens pele-vermelhas então deveriam ser exterminados. O bangue-bangue era o mote principal. Já nesses primeiros filmes mudos podemos encontrar cenas que iriam virar o marco principal dos faroestes. O mocinho em duelo contra o bandido, na rua principal, enquanto todos esperavam para ver quem sacava a arma mais rápido.

Tom Mix tinha experiência militar. Por dois anos ele serviu a artilharia do exército americano. Também havia trabalhado como assistente de xerife no Arizona. Assim era o homem certo para os primeiros filmes de western. Sabia montar bem (suas origens eram rurais), sabia manejar um revólver com eficiência e tinha uma boa imagem, uma boa presença de cena. O pacote completo. Sobre atuar, bem isso era apenas um aspecto secundário nessas primeiras produções. O que valia a pena (e o ingresso) eram mesmo as cenas de cavalgada, os duelos e, é claro, a pura diversão.

Pablo Aluísio.