terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Céu Mandou Alguém

Título no Brasil: O Céu Mandou Alguém
Título Original: 3 Godfathers
Ano de Produção: 1948
País: Estados Unidos
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)
Direção: John Ford
Roteiro: Laurence Stallings, Frank S. Nugent
Elenco: John Wayne, Pedro Armendáriz, Harry Carey Jr

Sinopse:
Três bandoleiros liderados por Robert Hightower (John Wayne) decidem roubar um banco na pequenina cidadezinha de Welcome no Arizona. Na fuga acabam sem água, perdidos no meio de um dos desertos mais hostis dos Estados Unidos. Lá encontram uma carruagem abandonada, com uma mulher grávida, prestes a ter um filho. Após ajudar no nascimento da criança a mãe morre. Agora os três assaltantes tentarão sobreviver naquele deserto implacável, tentando fugir do xerife e seus assistentes, ao mesmo tempo em que tentam manter o recém-nascido vivo.

Comentários:
Esse é certamente um dos mais interessantes e menos badalados filmes do mestre John Ford (1894 - 1973). O filme começa como todos os westerns da época, com um trio de bandidos de olho no banco de uma cidadela perdida no meio do deserto. Segue-se a perseguição do xerife e então o diretor dá uma guinada e tanto no enredo, fazendo daqueles três assaltantes pessoas de bom coração, que ajudam uma jovem mãe a ter seu filho no meio do deserto. Os três personagens, um americano (Wayne), um mexicano (Pedro Armendáriz) e um jovem pistoleiro conhecido como 'The Abilene Kid' (Harry Carey Jr.) mostram seu lado mais humano, mesmo após terem cometido um crime. O enredo não disfarça uma conotação levemente religiosa ao comparar aqueles três bandidos, os padrinhos do menino recém nascido (daí o título em inglês, 3 Godfathers), com a própria natividade do menino Jesus (com direito até mesmo a uma estrela brilhante no céu). Como um dos próprios personagens fala, eles seriam versões modernas dos três reis magos! Ford também utiliza a natureza do deserto como um elemento opressor sobre todos os personagens, tanto os perseguidos, como os perseguidores. Essa linguagem serve para demonstrar a pequenez do ser humano diante da natureza. O filme no final das contas, embora pouco conhecido, é mais uma das provas da genialidade de um cineasta realmente diferente, marcante, que deixou sua marca para sempre na história da sétima arte.

Pablo Aluísio.

O Anjo e o Malvado

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Título no Brasil: O Anjo e o Malvado
Título Original: Angel and the Badman
Ano de Lançamento: 1947
País: Estados Unidos
Estúdio: Republic Pictures
Direção: James Edward Grant
Roteiro: James Edward Grant
Elenco: John Wayne, Gail Russell, Harry Carey

Sinopse:
Quirt Evans (John Wayne) é um cowboy e pistoleiro que após ser perseguido no deserto por inimigos que querem sua morte, consegue escapar com a ajuda de uma jovem chamada Penelope Worth (Russell). Ela o leva até uma comunidade religiosa Quaker. Recuperado, Evans precisa decidir se vai voltar em busca dos homens que o caçaram no deserto ou se vai esquecer tudo, começando uma nova vida. 

Comentários:
Depois de fazer alguns filmes para o esforço de guerra (da segunda guerra mundial, obviamente) e até ter arriscado papéis de galã em filmes românticos, John Wayne decidiu que deveria voltar para as origens de sua carreira. Ele contratou o roteirista James Edward Grant e pediu que ele escrevesse uma história que lembrasse os enredos de seus primeiros filmes. Tudo bancado pelo próprio John Wayne através de sua recém criada companhia cinematográfica (a John Wayne Productions). Gostou tanto do roteiro que resolveu colocar o próprio Grant para dirigir o filme (muito embora o próprio Wayne fosse o diretor de fato dessa produção). O resultado ficou apenas regular. Não havia como voltar ao passado, a um estilo de cinema que já havia sido ultrapassado. Wayne tinha saudades de seus filmes da década de 1930, mas aquele já era um outro momento histórico, do pós-guerra. As ilusões e a inocência já não existiam mais. De qualquer forma, dentro de suas limitações, poderíamos até dizer que é um bom bang-bang, muito embora fique bem longe dos grandes filmes do ator. 

Pablo Aluísio.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Inferno nos Trópicos

Título no Brasil: Inferno nos Trópicos
Título Original: Tycoon
Ano de Lançamento: 1947
País: Estados Unidos
Estúdio: RKO Radio Pictures
Direção: Richard Wallace
Roteiro: Borden Chase, John Twist
Elenco: John Wayne, Anthony Quinn, Laraine Day, Cedric Hardwicke, Judith Anderson, James Gleason

Sinopse:
O engenheiro Johnny Munroe (John Wayne) é contratado para construir um túnel ferroviário através de uma montanha localizada na América do Sul. O desafio é criar uma estrada para chegar às minas da região. Sua tarefa fica complicada e sua ética fica comprometida quando ele acaba se apaixonando pela filha de seu chefe nesse projeto ousado e desafiador. 

Comentários:
A RKO estava em dificuldades financeiras, por isso voltou a contratar John Wayne para estrelar essa aventura passada na América do Sul. O próprio ator aceitou o convite de bom grado pois tinha uma dívida de gratidão com a RKO desde o começo de sua carreira. O filme é interessante, bem produzido e com roteiro um pouco irregular pois apresenta elementos que no meu ponto de vista seriam desnecessários nesse tipo de história. Eu considerei a parte romântica do filme um pouco valorizada acima do que era esperado. Alguém que ia atrás de um filme de aventuras com John Wayne não estava necessariamente esperando uma atuação de galã romântico por parte dele. Aliás ele nunca funcionou direito nesse tipo de papel. Talvez por essa razão o filme não tenha sido bem sucedido nas bilheterias de cinema na época de seu lançamento. Como foi uma produção muito cara, acabou trazendo prejuízo para a já problemática vida financeira da RKO que algum tempo depois iria acabar indo á falência, fechando suas portas definitivamente. 

Pablo Aluísio.

Dakota

Dakota
Esse foi o filme que trouxe John Wayne de volta ao gênero cinematográfico que o havia consagrado, o Western, mais conhecido entre os brasileiros como Faroeste. Wayne tinha se afastado por dois anos dos filmes de cowboy. Nesse período ele se dedicou aos filmes de guerra, afinal de contas o mundo passava pela Segunda Guerra Mundial. Sem condições de servir no campo de batalha do mundo real, o ator resolveu se empenhar no esforço de guerra através dos filmes em que atuava. O resultado comercial para ele foi muito bom, mas os fãs que adoravam seus filmes de faroeste tinham sido deixados para trás. 

Todos os dias chegavam cartas dos fãs aos estúdios pedindo por mais filmes de John Wayne no gênero western. Só que o ator realmente, naquele momento histórico, estava atuando em outro tipo de filme. Essa produção realizada em 1945 vinha justamente para atender os anseios de seu público. É um filme muito bom, onde Wayne interpreta um tipo de personagem mais maduro e mais centrado em defender os valores que ele prezava. Com figurino mais conservador, usando um grande chapéu branco cheio de estilo em sutil homenagem ao velho cowboy Tom Mix, esse faroeste sem dúvida foi um dos bons momentos da carreira de Wayne, embora hoje em dia esteja um tanto esquecido. 

Dakota (Dakota, Estados Unidos, 1945) Direção: Joseph Kane / Roteiro: Lawrence Hazard, Howard Estabrook, Carl Foreman / Elenco: John Wayne, Vera Ralston, Walter Brennan / Sinopse: A história do filme se passa em 1871 quando um grupo de ricos homens de negócios entram em choque com fazendeiros do território de Dakota, no oeste dos Estados Unidos. 

Pablo Aluísio.

Os Filmes de Faroeste de John Wayne - Parte 18

A década de 1950 chegou e John Wayne não sabia, mas iria fazer seus filmes mais importantes nesses anos que viriam. O curioso é que por essa fase o próprio Wayne já falava em se aposentar, comprar um rancho no sul da Califórnia e se estabelecer por lá. Não estava mais muito empolgado com o cinema. Já havia ganho dinheiro suficiente para cuidar de um próspero rancho de cavalos. Era o seu principal plano. Ter um rancho com os melhores cavalos para alugar o seu plantel para os estúdios de cinema. No set de filmagens de seus filmes John Wayne estava sempre repetindo essa mesma ladainha. Que estava velho e cansado, que iria comprar um rancho para criar cavalos. 

A história chegou até os ouvidos do diretor John Ford. Ele tinha uma relação de amizade tão próxima de John Wayne que beirava a insanidade. Eles gostavam de se provocar. Ford assim enviou um telegrama para Wayne dizendo: "Ouvi dizer que você está querendo se aposentar. Deixa de falar asneiras, seu Hipopótamo. Quero você em meu próximo filme!". Ao ler a mensagem Wayne soltou uma grande gargalhada e mandou a resposta: "Tudo certo, caolho! Basta me dizer onde vai ser feito o filme. Estarei lá!"

O filme seria mais um grande clássico da dupla John Ford - John Wayne. Intitulado "Rio Grande" seria mais um filme da linha de produções de western que tinham como tema a cavalaria americana. Anos depois esse filme seria classificado como um dos mais importante da trilogia da cavalaria americana na conquista do Oeste selvagem do mestre Ford. 

O curioso é que o personagem de John Wayne era muito mais velho do que o próprio ator. Acabou sendo mais uma piada para John Ford que lhe disse no primeiro dia de filmagem: "Já que você vive falando como um velho, vou te dar um personagem de velho para fazer nesse filme!". Para completar, o personagem de Wayne iria usar um vasto bigode, típico do período histórico em que a história se passava. John Wayne odiava bigodes, mas John Ford aproveitou para ter mais um elemento de humor com Wayne. Ele lhe disse: "Ou usa bigode ou está fora do filme!". Piadas à parte o filme foi um grande sucesso de público e crítica, demonstrando mais uma vez que quando os dois amigos se reuniam geralmente resultava em mais uma grande obra-prima do cinema.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 28 de julho de 2026

William S. Hart

William S. Hart 
William S. Hart foi um dos mais importantes atores, roteiristas, produtores e diretores da era do cinema mudo, sendo considerado um dos grandes responsáveis por estabelecer o gênero western como um dos pilares da indústria cinematográfica norte-americana. Nascido em 6 de dezembro de 1864, em Newburgh, no estado de Nova York, Hart iniciou sua carreira artística no teatro, onde ganhou experiência interpretando obras de William Shakespeare e outras peças clássicas. Antes de chegar ao cinema, percorreu os Estados Unidos com companhias teatrais e desenvolveu uma reputação como ator dramático de grande intensidade. Quando ingressou na indústria cinematográfica, em 1914, já possuía uma maturidade artística incomum para a época. Essa experiência fez com que seus filmes apresentassem interpretações mais naturais e menos exageradas do que era habitual no cinema mudo. Sua figura alta, o rosto marcado e a postura séria transmitiam credibilidade ao representar pistoleiros, xerifes e homens do Velho Oeste. Em poucos anos, tornou-se uma das maiores estrelas de Hollywood e um dos artistas mais bem pagos da década de 1910. Seu nome passou a ser associado à autenticidade e ao realismo nos filmes de faroeste.

Diferentemente de muitos colegas que interpretavam cowboys heroicos e aventureiros idealizados, William S. Hart procurava retratar personagens moralmente complexos, frequentemente divididos entre a violência e o desejo de redenção. Seus filmes mostravam um Oeste mais duro, onde as consequências das escolhas dos personagens eram tratadas com seriedade. Hart fazia questão de utilizar cenários naturais sempre que possível e pesquisava costumes, roupas e armamentos para tornar suas produções historicamente convincentes. Essa preocupação com o realismo fez dele uma referência para o gênero, influenciando gerações posteriores de cineastas e atores. Entre seus trabalhos mais importantes estão "The Bargain" (1914), "Hell's Hinges" (1916), "The Aryan" (1916), "Wild Bill Hickok" (1923) e "Tumbleweeds" (1925). Em muitos desses filmes, também participou da produção e do desenvolvimento das histórias, garantindo que sua visão artística fosse preservada. Sua abordagem diferenciada contribuiu para elevar o western de simples entretenimento para uma narrativa de grande força dramática. O público reconhecia em Hart um herói imperfeito, mas profundamente humano.

Durante o auge de sua carreira, William S. Hart foi um dos maiores astros da Paramount Pictures e de outras produtoras importantes do período. Seus filmes alcançavam enorme sucesso comercial nos Estados Unidos e também eram distribuídos internacionalmente, ajudando a consolidar a imagem do cowboy americano ao redor do mundo. O ator tornou-se um dos primeiros grandes ídolos do cinema mundial, conquistando uma base fiel de admiradores. Sua influência foi tão significativa que muitos dos códigos narrativos utilizados posteriormente pelos westerns tiveram origem em suas produções. Hart também valorizava os cavalos e os animais utilizados em cena, mantendo uma relação de respeito com eles durante as filmagens. Seu perfeccionismo frequentemente aumentava o tempo de produção, mas também resultava em obras visualmente marcantes e tecnicamente avançadas para a época. Apesar do enorme sucesso, a chegada do cinema sonoro modificou rapidamente a indústria cinematográfica. Como aconteceu com diversos astros do cinema mudo, sua carreira perdeu força no final da década de 1920.

Após se afastar das telas, William S. Hart dedicou-se à escrita e à preservação da memória do Velho Oeste. Em 1929 publicou sua autobiografia, "My Life East and West", na qual relatou sua trajetória artística e suas experiências durante a formação da indústria cinematográfica. Em seus últimos anos, viveu em sua propriedade em Newhall, Califórnia, cercado por uma vasta coleção de objetos históricos relacionados ao Oeste americano. O local, conhecido atualmente como William S. Hart Museum, preserva parte de seu legado e reúne documentos, figurinos, armas, pinturas e lembranças de sua carreira. Hart também foi um defensor da conservação da natureza e demonstrava grande interesse pela história da expansão para o oeste dos Estados Unidos. Mesmo aposentado, permaneceu sendo uma figura respeitada em Hollywood, frequentemente homenageado por sua contribuição ao cinema. Faleceu em 23 de junho de 1946, aos 81 anos, deixando uma carreira com dezenas de filmes que ajudaram a definir a identidade do western clássico.

O legado de William S. Hart permanece extremamente relevante para a história do cinema. Muitos estudiosos o consideram o primeiro grande astro do western realista e um dos artistas que transformaram esse gênero em uma forma respeitada de narrativa cinematográfica. Cineastas como John Ford, Howard Hawks e atores como John Wayne reconheceram a importância da tradição construída por Hart, ainda que cada um tenha desenvolvido seu próprio estilo. Sua preocupação com autenticidade, profundidade psicológica e qualidade narrativa influenciou diretamente a evolução dos filmes de faroeste ao longo do século XX. Atualmente, suas produções são restauradas por arquivos especializados e estudadas em universidades e cinematecas como exemplos fundamentais da linguagem do cinema mudo. Embora seu nome seja menos conhecido pelo grande público contemporâneo, sua contribuição permanece essencial para compreender a formação de Hollywood e o desenvolvimento do western como um dos gêneros mais populares da história do cinema. William S. Hart continua sendo lembrado como um verdadeiro pioneiro, cuja visão artística ajudou a moldar a imagem do Velho Oeste que permanece viva no imaginário popular até os dias de hoje.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

Terras em Disputa

Terras em Disputa
O último filme estrelado por William S. Hart foi Tumbleweeds, lançado em 1925, considerado um dos grandes clássicos do cinema mudo e também a despedida do ator das telas. A produção foi inspirada nos acontecimentos históricos da Corrida por Terras de Oklahoma, em 1889, quando milhares de colonos disputaram propriedades recém-abertas pelo governo norte-americano. No filme, Hart interpreta Don Carver, um cowboy solitário que acaba se envolvendo com uma jovem fazendeira e precisa enfrentar rivais, conflitos de terra e dilemas morais em meio à expansão do Oeste. Fiel ao estilo que consagrou sua carreira, Hart apresenta um protagonista íntegro, corajoso e profundamente humano. O filme foi elogiado pela grandiosidade das cenas da corrida por terras, pela autenticidade da ambientação e pelo realismo característico de seus westerns. Embora tenha obtido boa recepção do público em seu lançamento, chegou em um momento em que o cinema passava por grandes transformações, e a popularidade dos astros do cinema mudo começava a diminuir. Ainda assim, "Tumbleweeds" consolidou-se como uma despedida digna de um dos maiores pioneiros do gênero western.

Com o rápido avanço da tecnologia cinematográfica e a chegada dos filmes sonoros poucos anos depois, "Tumbleweeds" acabou se tornando um marco do encerramento de uma era. Os críticos da época destacaram a habilidade de William S. Hart em construir personagens moralmente complexos e sua preocupação em representar o Velho Oeste de forma historicamente convincente. Décadas mais tarde, historiadores e estudiosos passaram a considerar a obra uma das melhores produções do western silencioso. Em 1939, Hart voltou ao filme para narrar uma nova introdução sonora, apresentando a obra às novas gerações e explicando o contexto histórico da história. Essa versão contribuiu para preservar o longa quando muitos filmes mudos estavam sendo perdidos. Atualmente, "Tumbleweeds" é frequentemente citado entre os westerns mais importantes da década de 1920 e é lembrado como o testamento artístico de William S. Hart. Seu realismo, sua direção cuidadosa e a grandiosidade das sequências de ação continuam impressionando pesquisadores e admiradores do cinema clássico, reforçando a importância do ator na consolidação do faroeste como um dos gêneros mais populares da história do cinema.

Terras em Disputa Título original: Tumbleweeds | Título no Brasil: Tumbleweeds (também conhecido em algumas exibições como Terras em Disputa) | Ano de lançamento: 1925 | País: Estados Unidos | Gênero: Western, Drama | Direção: King Baggot (com supervisão artística de William S. Hart) | Produção: William S. Hart | Roteiro: C. Gardner Sullivan, baseado na história de Hal G. Evarts | Elenco principal: William S. Hart, Barbara Bedford, Lucien Littlefield, J. Gordon Russell e Richard Neill | Fotografia: Joseph H. August | Distribuição: Paramount Pictures | Duração: aproximadamente 80 minutos | Idioma original: Filme mudo, com intertítulos em inglês.

Erick Steve. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Faroeste em seus Primórdios - Parte 3

O gênero western está entre os mais antigos e importantes da história do cinema de Hollywood, tendo surgido praticamente junto com a própria indústria cinematográfica norte-americana. Ainda no período do cinema mudo, produtores perceberam que as histórias ambientadas na fronteira do Velho Oeste despertavam enorme curiosidade do público, reunindo elementos como aventura, ação, paisagens grandiosas, conflitos entre a lei e o crime e personagens marcantes. Um dos marcos iniciais foi The Great Train Robbery (1903), dirigido por Edwin S. Porter, considerado por muitos historiadores como o primeiro grande western da história. Com pouco mais de dez minutos de duração, o filme apresentou uma narrativa dinâmica, utilizando técnicas inovadoras de montagem e enquadramento que influenciariam toda a linguagem cinematográfica. Seu enorme sucesso comercial demonstrou que o público estava disposto a pagar para assistir histórias sobre assaltantes, xerifes, cowboys e a conquista do Oeste americano. A partir desse momento, os westerns passaram a ser produzidos em grande quantidade, transformando-se rapidamente em um dos principais produtos da nascente indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Embora ainda fossem produções simples, lançaram as bases para um dos gêneros mais duradouros da história do cinema.

Nos anos seguintes, os estúdios perceberam que os espectadores voltavam aos cinemas não apenas pelas histórias, mas também pelos intérpretes que davam vida aos heróis do Oeste. Assim surgiram os primeiros grandes astros do western, que se tornaram verdadeiras celebridades do cinema mudo. O mais famoso deles foi William S. Hart, conhecido por interpretar cowboys sérios, honestos e realistas, muito diferentes dos aventureiros exagerados que apareciam em produções anteriores. Hart buscava autenticidade em suas interpretações e frequentemente utilizava figurinos e equipamentos inspirados na vida real dos antigos vaqueiros do Oeste. Outro nome fundamental foi Tom Mix, cuja imagem contrastava com a de Hart. Mix interpretava heróis carismáticos, sorridentes e extremamente habilidosos com cavalos, cordas e armas, protagonizando cenas de ação espetaculares que encantavam crianças e adultos. Também merece destaque Broncho Billy Anderson, considerado um dos primeiros grandes ídolos do gênero, tendo estrelado centenas de curtas-metragens nas primeiras décadas do século XX. Esses pioneiros ajudaram a estabelecer o arquétipo do cowboy heroico, figura que se tornaria um dos maiores símbolos da cultura popular norte-americana.

O crescimento da popularidade dos westerns ocorreu de forma extremamente rápida entre as décadas de 1910 e 1920. Os filmes eram relativamente baratos de produzir, pois utilizavam cenários naturais do oeste americano, poucas construções cenográficas e elencos menores do que os exigidos por grandes dramas históricos. Além disso, apresentavam histórias de fácil compreensão, recheadas de perseguições a cavalo, duelos, assaltos a bancos, ataques de bandidos e resgates heroicos, elementos que agradavam públicos de diferentes idades e classes sociais. Os exibidores perceberam que os westerns garantiam salas cheias e passaram a solicitá-los em grande quantidade aos estúdios. Em pouco tempo, praticamente todas as grandes companhias de Hollywood mantinham unidades especializadas na produção desse tipo de filme. Muitos longas alcançavam arrecadações expressivas para os padrões da época, tornando-se sucessos de bilheteria e incentivando investimentos cada vez maiores. O gênero também encontrou grande aceitação fora dos Estados Unidos, sendo exportado para diversos países e contribuindo para a expansão internacional de Hollywood como principal centro da produção cinematográfica mundial.

Durante a década de 1920, o western deixou de ser apenas entretenimento popular para ganhar prestígio artístico. Diretores passaram a investir em narrativas mais elaboradas, fotografia sofisticada e personagens psicologicamente mais complexos. Entre os cineastas responsáveis por essa evolução destacou-se John Ford, que anos mais tarde seria reconhecido como o maior diretor da história do gênero. A consolidação definitiva ocorreu com a chegada do cinema sonoro no final da década de 1920 e início dos anos 1930, quando os tiros, os cascos dos cavalos, os diálogos e as trilhas sonoras ampliaram ainda mais o impacto das produções. Foi nesse período que começaram a surgir novas estrelas, preparando o terreno para nomes como John Wayne, Gary Cooper, Randolph Scott e Henry Fonda, que dominariam as telas nas décadas seguintes. Paralelamente, os estúdios investiam em campanhas publicitárias cada vez maiores, transformando os westerns em verdadeiros eventos cinematográficos. O público passou a identificar o gênero como um espetáculo de ação e aventura, consolidando sua posição entre os maiores sucessos comerciais de Hollywood.

O extraordinário sucesso dos primeiros westerns exerceu profunda influência sobre toda a história do cinema. Eles ajudaram a definir a linguagem narrativa de Hollywood, popularizaram o conceito de astro cinematográfico e demonstraram que determinados gêneros poderiam atrair públicos fiéis por décadas. Além do êxito financeiro, essas produções construíram uma visão mitificada da expansão para o Oeste, criando personagens lendários como o cowboy solitário, o xerife incorruptível e o fora da lei carismático, figuras que atravessaram gerações e continuam presentes na cultura popular. Historiadores do cinema frequentemente destacam que o western foi o primeiro gênero verdadeiramente internacional produzido pelos Estados Unidos, influenciando cineastas em diversos países e inspirando movimentos como o western italiano das décadas de 1960 e 1970. Críticos da Variety, do The New York Times e da revista Sight & Sound frequentemente apontam que o western foi decisivo para consolidar Hollywood como a principal indústria cinematográfica do mundo, graças à combinação de histórias universais, grandes astros e enorme apelo popular. O legado desses primeiros filmes permanece vivo até hoje, sendo reconhecido como um dos pilares fundamentais da história do cinema mundial.

O Faroeste em seus primórdios - Parte 2

Provavelmente o primeiro grande astro do cinema no gênero western tenha sido Tom Mix. De origem humilde (seu pai era um trabalhador comum, um lenhador), Mix não tinha a menor habilidade para atuar bem, porém já tinha experiência no mundo dos espetáculos circenses, pois havia trabalhado muitos anos no circuito wild west, onde artistas de circo se passavam por cowboys e índios do velho oeste.

A novidade vinha do fato de que agora tudo poderia ser capturado em filme. Ao invés de excursionar por todo o país em shows itinerantes, agora era possível fazer apenas uma apresentação, filmar e depois distribuir cópias por todo o país em exibições a preços promocionais. Era a invenção do cinema como negócio lucrativo, como indústria. Para Tom Mix, o primeiro grande cowboy das telas de cinema, não poderia haver nada melhor.

Os roteiros desses primeiros filmes de western, ainda na era do cinema mudo, não primavam pela originalidade. Na verdade eram meras adaptações dos shows de oeste selvagem. Havia basicamente dois ou três personagens centrais. O mocinho, o vilão e a mocinha. Os índios estavam na tela apenas para atacar os pioneiros brancos, que eram covardemente assassinados. Esse selvagens pele-vermelhas então deveriam ser exterminados. O bangue-bangue era o mote principal. Já nesses primeiros filmes mudos podemos encontrar cenas que iriam virar o marco principal dos faroestes. O mocinho em duelo contra o bandido, na rua principal, enquanto todos esperavam para ver quem sacava a arma mais rápido.

Tom Mix tinha experiência militar. Por dois anos ele serviu a artilharia do exército americano. Também havia trabalhado como assistente de xerife no Arizona. Assim era o homem certo para os primeiros filmes de western. Sabia montar bem (suas origens eram rurais), sabia manejar um revólver com eficiência e tinha uma boa imagem, uma boa presença de cena. O pacote completo. Sobre atuar, bem isso era apenas um aspecto secundário nessas primeiras produções. O que valia a pena (e o ingresso) eram mesmo as cenas de cavalgada, os duelos e, é claro, a pura diversão.

Pablo Aluísio.

O Faroeste em seus primórdios - Parte 1

O termo faroeste só existe no Brasil. É uma abreviação da palavra Farm of West (Fazenda do Oeste) que se popularizou na língua portuguesa. Para os americanos esse gênero cinematográfico é conhecido simplesmente como Western, que quer dizer simplesmente Oeste, ocidental. Como se sabe há duas costas bem definidas no mapa dos Estados Unidos, a costa leste (Nova Iorque e demais estados banhados pelo Oceano Atlântico) e a costa oeste (Califórnia e estados vizinhos).

A conquista do Oeste fez parte da história dos Estados Unidos. Os pioneiros que foram para lá encontraram terras desérticas, selvagens nativos hostis e muita brutalidade, mas havia novas terras dadas pelo governo a quem chegasse primeiro. Também havia ouro e esse metal foi o grande propulsor dos pioneiros, principalmente na Califórnia, onde grandes cidades como San Francisco nasceram basicamente de vilas de mineradores de ouro.  Esse também foi tema de inúmeros filmes ao longo dos anos.

Curiosamente outro tema recorrente em filmes de western, envolvendo a guerra civil e os estados confederados, não teve historicamente nenhuma ligação com o velho oeste. Isso porque a guerra civil se desenrolou mesmo nas fronteiras dos estados do sul, que geograficamente eram bem longe dos estados do oeste. No máximo houve algumas batalhas no meio oeste, mas na costa oeste mesmo a guerra pouco chegou. Ignorado pelos roteiristas, isso entrou também na mitologia do velho oeste, afinal a guerra civil foi muito marcante na história dos Estados Unidos e aconteceu na mesma época em que os pioneiros tentavam a sorte no meio do deserto do oeste.

E foi no oeste também que se desenvolveu a indústria cinematográfica americana, mais especificamente na cidade de Los Angeles, na Califórnia. Ora, era simplesmente impossível ignorar a mitologia da própria região nas histórias dos filmes, por isso o cinema americano tal como o conhecemos também nasceu junto com o western. No registro dos primeiros filmes na América já se encontram diversos faroestes, todos já com primórdios da mitologia do velho oeste, com seus cowboys, índios, soldados da cavalaria, bandidos e mocinhas indefesas.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Audie Murphy e o Western - Parte 5

Em 1950 Audie Murphy atuou no western "Cavaleiros da Bandeira Negra." Já tive oportunidade de escrever sobre esse faroeste aqui no blog. Murphy interpretava nada mais, nada menos, do que um dos pistoleiros mais conhecidos da história do velho oeste americano, o bandoleiro e assassino Jesse James. É interessante porque ao invés de ser um roteiro mais ligado com a verdade histórica, aqui se priorizou um suposto bom mocismo (que nunca existiu) de Jesse James. O pistoleiro deixa de ser um bandido para ser um homem arrependido.

Ele e o irmão Frank James (Richard Long) decidem abandonar a vida de crimes, deixando para trás o bando de Clarke Quantrill (Brian Donlevy); Esse foi outro personagem histórico real, um facínora que usava as cores de um dos lados da guerra civil para matar e saquear populações civis desarmadas e indefesas. Uma coisa insana. No filme pelo menos ele mantém o estigma de vilão, algo que nem sempre acontece sob uma ótica revisionista histórica que existe principalmente nos estados do sul. Acredite, muitos sulistas até hoje consideram Quantrill uma espécie de herói nacional, ou pelo menos, um herói das cores da bandeira confederada! Algo lamentável realmente.

De uma maneira ou outra, o nome de Jesse James sempre garantia boas bilheterias naqueles tempos. Ele havia sido, ao lado de Billy The Kid, um dos nomes mais conhecidos da mitologia do velho Oeste. Curiosamente, o ator iria ao longo dos anos interpretar os dois personagens históricos. Os filmes não era historicamente precisos, nem era essa sua intenção. Na realidade, eram adaptações de romances de faroeste que eram muito populares na época. Alguns roteiros foram baseados em livros de bolso que viraram febre editorial nos anos 50.

Depois desse faroeste que eu sempre considerei muito bom, Audie Murphy fez um dos melhores filmes de sua carreira. Em "A Glória de um Covarde" o ator foi dirigido pelo mestre John Huston. Seu personagem se chamava Henry Fleming, um soldado ianque que decide desertar durante a guerra civil americana. Todos os seus companheiros de farda parecem ser bravos e valentes, mas Henry tem sérias dúvidas sobre o que está acontecendo. Esse filme é brilhante porque valoriza mais o lado humano de seus personagens. Não é um faroeste comum ou um filme sobre a guerra civil que ficasse no convencional. Algo previsível de entender, já que Huston foi um diretor genial, um dos mais brilhantes cineastas de sua geração. Ele jamais iria fazer um filme de faroeste que fosse banal. Esse sem dúvida foi um dos grandes filmes de Audie Murphy.

Pablo Aluísio. 

Antro da Perdição

Título no Brasil: Antro da Perdição
Título Original: Destry
Ano de Lançamento: 1954
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures
Direção: George Marshall
Roteiro: Edmund H. North, D.D. Beauchamp
Elenco: Audie Murphy, Mari Blanchard, Lyle Bettger

Sinopse:
No velho oeste, em uma pequena cidade, um jovem de boa índole é nomeado como o novo xerife. O que ele não sabe, mas vai aprender da pior forma possível, é que todo o sistema ali é corrupto, passando pelo prefeito e por demais homens ricos e influentes e isso vai colocar o xerife recém nomeado em rota de colisão contra todos esses sujeitos desonestos e poderosos. 

Comentários:
"Antro da Perdição" fechou o ano de 1954 para o ator Audie Murphy nos cinemas. Foi lançado nas férias de fim de ano e se deu muito bem nas bilheterias. Esse western foi dirigido pelo ótimo cineasta George Marshall. A história mostrava um jovem que se tornava xerife de uma cidade do velho oeste. O problema é que a corrupção imperava naquela região. O próprio prefeito, aliado a um criminoso e bandoleiro, dominavam tudo, roubando e pilhando toda a riqueza da cidade. Ser um xerife honesto naquele meio certamente não seria fácil. Temos aqui mais um faroeste B estrelado pelo Audie Murphy. Ele costumava ser bem duro quando criticava seus próprios filmes, mas a realidade é que todos eles eram ótimas películas voltadas para a pura diversão. E funcionavam muito bem, lotando as sessões de matinês dos anos 50. Essas eram realizadas para um público mais juvenil, crianças e adolescentes. E os donos de cinema agradeciam. Em suma, não havia nada de errado nessas produções. Muito pelo contrário, várias delas ficaram no imaginário popular de seu público, criando até um doce saudosismo em quem teve a oportunidade de ver no cinema, na época. 

Pablo Aluísio e Erick Steve.

Tambores da Morte

Título no Brasil: Tambores da Morte
Título Original: Drums Across the River
Ano de Lançamento: 1954
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures
Direção: Nathan Juran
Roteiro: John K. Butler, Lawrence Roman
Elenco: Audie Murphy, Walter Brennan, Lyle Bettger

Sinopse:
Colonos e mineradores brancos, vindos do leste, começam uma terrível disputa por terras tradicionalmente ocupadas por povos originários, no velho oeste americano. A disputa visa colocar em mãos o ouro, recém descoberto naquelas ricas regiões inexploradas. 

Comentários:
"Tambores da Morte" foi o segundo filme de Audie Murphy a chegar nos cinemas nesse ano de 1954. A história mostrava uma terra em conflito no velho oeste. Colonos brancos descobriam ouro nas terras tradicionalmente ocupadas por índios. Obviamente que a ganância acabava falando mais alto. Os nativos queriam a preservação de suas terras e os colonos queriam extrair todo aquele ouro das montanhas que eram sagradas pelos índios. A guerra entre eles não demorava a acontecer. Bom western B, bem típico dos anos 50. Não vai muito a fundo na questão envolvendo a posse daquelas terras ricas em ouro, sobre quem efetivamente teria direito a elas, mas funciona muito bem como diversão de matinê. Não poderia se esperar algo diferente disso naqueles tempos. 

Pablo Aluísio e Erick Steve.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Pistoleiro do Destino

Pistoleiro do Destino
Clássico western trazendo o ator Gary Cooper como astro principal de seu elenco. Também conhecido como "Tudo por Uma Mulher" esse faroeste conta uma história interessante. Ao chegar numa pequena cidade do velho oeste, o cowboy Melody Jones (Gary Cooper) é confundido com o famoso pistoleiro Monte Jarrad (Dan Duryea), bandido procurado e com a cabeça à prêmio. Todos na cidadezinha temem a presença de Melody, apesar dele ser na verdade apenas um cowboy, um trabalhador rural, que nunca se envolveu com o mundo do crime. Para piorar a namorada do verdadeiro Jarrad começa a fazer de tudo para que todos continuem acreditando que Melody é de fato o fora-da-lei, isso porque ela quer mesmo desviar a atenção do xerife enquanto o verdadeiro bandido planeja uma forma de escapar da região sem ser enforcado por seus crimes.

Embora à primeira vista pareça um faroeste convencional, o que temos aqui é um filme que foge um pouco dos padrões da época, inclusive apostando em um pouco de humor e romance, onde o roteiro não explorava apenas os tiroteios ou os duelos, mas também os problemas criados após o personagem de Cooper ser confundido com um bandido rápido no gatilho. O Melody Jones de Cooper é na verdade um sujeito bem pacato, tímido e introvertido. Esse jeito caladão caía muito bem no tipo de personagem que o ator Gary Cooper costumava interpretar em seus filmes.

Dessa forma o roteiro de Nunnally Johnson tem um jeito diferenciado em relação ao típico roteiro de filmes de faroeste daqueles tempos. Também desenvolve melhor a principal personagem feminina, a destemida Cherry de Longpre (Loretta Young). Esse diferencial foi proposital pois o estúdio estava tentando também atrair o público feminino para assistir ao filme. Uma leve mudança para aumentar as bilheterias. E a presença de Gary Cooper acentuava ainda mais esse apelo junto às mulheres, já que ele era considerado um dos maiores galãs do cinema americano. Alto, boa pinta, com jeito de pioneiro do volho oeste, honesto e confiável, ele fazia suas fãs suspirarem quando iam ao cinema.

Pistoleiro do Destino / Tudo por Uma Mulher (Along Came Jones, Estados Unidos, 1945) Estúdio: MGM / Direção: Stuart Heisler / Roteiro: Nunnally Johnson, Alan Le May / Elenco: Gary Cooper, Loretta Young, William Demarest, Dan Duryea, Frank Sully, Don Costello / Sinopse: Melody Jones (Cooper) é um cowboy íntegro e honesto que passa a ser confundido com um perigoso pistoleiro e criminoso na pequena cidade do velho oeste onde chega após uma longa viagem pelo deserto.

Pablo Aluísio.

Legião de Heróis

Título no Brasil: Legião de Heróis
Título Original: North West Mounted Police
Ano de Produção: 1940
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Cecil B. DeMille
Roteiro: Alan Le May, Jesse Lasky Jr
Elenco: Gary Cooper, Madeleine Carroll, Paulette Goddard, Preston Foster, Robert Preston, George Bancroft

Sinopse:
A história do filme se passa em 1885. Dusty Rivers (Cooper) é um Texas Ranger que viaja para o Canadá para prender um caçador procurado por assassinato e roubo. O criminoso cruzou a fronteira e passou a incitar os nativos da região em uma rebelião contra o governo canadense. O clima passa a ser de guerra. Caberá a Rivers prender o procurado para evitar um banho de sangue. Filme vencedor do Oscar nas categorias de melhor edição e melhor direção de fotografia.

Comentários:
Um faroeste diferente, cuja história se passa no frio Canadá e não nas longas areias do deserto do velho oeste dos Estados Unidos. Nem preciso escrever que a direção de fotografia ficou belíssima, justamente por causa das locações em regiões especialmente belas daquele país montanhoso e gelado. Acabou vencendo o Oscar de forma mais do que merecida. Além disso o filme se destaca também por ter dois nomes importantes na história do cinema americano. O primeiro é Cecil B. DeMille, lendário produtor e magnata do cinema na era de ouro de Hollywood. O interessante é que ele gostou tanto do roteiro do filme que decidiu dirigir, algo que nem sempre fazia, uma vez que se notabilizou mesmo por ser um grande produtor na velha Hollywood. Gary Cooper é o outro nome que se destaca e logo chama a atenção. Considerado um dos grandes atores de estilo faroeste do cinema americano, esse veterano das telas está em seu papel habitual, a do homem honesto e íntegro, que deseja fazer cumprir a lei, custe o que custar. Em conclusão temos aqui um clássico do western que se destaca justamente por suas peculiaridades. Grande filme!

Pablo Aluísio.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Enterrem Meu Coração na Curva do Rio

Esse é um filme muito importante, seu roteiro conta capítulos relevantes da história da conquista do oeste dos Estados Unidos. Após o massacre da sétima cavalaria pelas tribos comandadas por Touro Sentado (August Schellenberg) o governo americano consegue finalmente celebrar um tratado de paz com a nação Sioux. Os guerreiros são desarmados e povo indígena enviado para reservas no Arizona, Colorado e outros estados do oeste. Nesse processo também começa a mudança cultural entre os índios. Siouxs como Ohiyesa (Chevez Ezaneh) ganham nomes cristãos e são enviados para estudar nas grandes cidades do leste. Era o começo do fim da identidade cultural do nativo americano.

Baseado em fatos reais esse filme foi inspirado no best seller escrito por Dee Brown que desde seu lançamento já vendeu mais de quatro milhões de cópias. A obra pertence a um grande movimento de revisionismo que foi muito forte dentro do meio acadêmico americano durante os anos 1970. Basicamente o livro mostrava o processo de destruição da cultura nativa dos povos indígenas americanos, em especial os Sioux, povo guerreiro e orgulhoso que foi de fato o último a se render ao exército da União no século XIX. Subjugados, os últimos guerreiros e suas famílias foram enviados para distantes e secas reservas em regiões onde não havia caça e nem condição de se viver da terra. Chefes tribais como o glorioso Touro Sentado que venceu as tropas do General Custer foram humilhados, vivendo sob vigilância do governo americano que os colocou numa situação de viver às custas das rações distribuídas pelos agentes federais.

Todo esse clima de tensão acabou favorecendo ao renascimento de um novo sentimento contra o homem branco, o que gerou mais mortes e destruição, culminando com o desaparecimento dos últimos grandes chefes tribais. Esse filme da HBO tenta passar parte da riqueza da obra original mas se concentra em apenas duas linhas narrativas. Na primeira acompanhamos o fim da vida de Touro Sentado. As humilhações que lhe foram impostas e a complicada convivência com os brancos, sempre rompendo seus tratados anteriores em busca de mais subjugação por parte dos nativos. Já na segunda linha narrativa o roteiro explora a história de um jovem Sioux que, levado para o centro da civilização branca, troca de nome e se forma em Medicina. Sua crise de identidade porém logo se impõe e ele tenta superar essa complicada e delicada situação. É um ótimo filme, muito consciente do ponto de vista histórico e social, que certamente agradará aos que gostam de conhecer mais sobre a história do velho oeste americano.

Enterrem Meu Coração na Curva do Rio (Bury My Heart at Wounded Knee, Estados Unidos, 2007) Estúdio: HBO Films / Direção: Yves Simoneau / Roteiro: Daniel Giat, baseado na obra de Dee Brown / Elenco: August Schellenberg, Anna Paquin, Chevez Ezaneh, Aidan Quinn / Sinopse: A história do filme é toda baseada em fatos reais, contando a história das guerras e do choque cultural entre homens brancos e nativos americanos, durante a conquista do oeste.

Pablo Aluísio.

O Filho da Estrela Nascente

Título no Brasil: O Filho da Estrela Nascente
Título Original: Son of the Morning Star
Ano de Produção: 1991
País: Estados Unidos
Estúdio: Republic Television, The Mount Company
Direção: Mike Robe
Roteiro: Evan S. Connell, Melissa Mathison
Elenco: Gary Cole, Rosanna Arquette, Stanley Anderson, George Dickerson, Terry O'Quinn, Dean Stockwell

Sinopse:
Enviado pelo governo americano para combater guerreiros rebeldes das nações Sioux e Apache, o General George Armstrong Custer (Gary Cole) acaba caindo em uma emboscada numa região conhecida como Little Bighorn. O dia é 25 de junho de 1876 e a chacina da Sétima Cavalaria dos Estados Unidos entraria para a história. Filme vencedor do Primetime Emmy Awards nas categorias de Melhor Som, Figurino e Edição. 

Comentários:
Essa é uma minissérie que foi lançada no Brasil, no mercado de vídeo VHS, em edição dupla. A intenção dos produtores foi contar de forma isenta e historicamente correta a verdadeira história do General Custer e a Sétima Cavalaria. Como se sabe esse foi um dos eventos mais famosos da história do velho oeste americano, quando Custer e seus homens foram derrotados e mortos por nativos liderados por Cachorro Louco e Touro Sentado. A morte dos soldados e seu general traumatizou os americanos na época, a tal ponto que o exército entrou definitivamente na chamada guerra indígena, onde centenas de milhares de índios foram mortos em batalhas sangrentas e brutais. Outros foram despachados para territórios desertos, hostis, onde muitos morreram de fome ou pela exaustão de se viver em lugares tão impróprios para a vida humana. Assim o roteiro procura responder a pergunta que perdurou por todos esses séculos: Custer era um verdadeiro herói ou um carniceiro que foi fazer o serviço sujo do governo americano, matando homens, mulheres, idosos e crianças sem distinção? No meio da barbárie se destacam as boas cenas de luta e a reconstituição histórica perfeita que fez esse filme ser premiado pelo Emmy, o Oscar da TV americana. Hoje em dia essa produção anda meio esquecida. Pessoalmente nunca vi uma reprise nos canais de TV a cabo. Seria uma boa ideia resgatar esse bom momento televisivo sobre um dos generais mais controversos da história dos Estados Unidos e sua colonização rumo ao oeste selvagem. 

Pablo Aluísio.

terça-feira, 23 de junho de 2026

O Intrépido General Custer

O Intrépido General Custer
Cinebiografia romanceada do General George Armstrong Custer (Errol Flynn) e sua sétima cavalaria. A tropa ficou muito famosa na história norte-americana por causa de suas lutas contra tribos hostis lideradas pelo chefe Sioux Touro Sentado. O clímax do filme acontece justamente na batalha de Little Big Horn quando os soldados americanos enfrentaram de forma decisiva, em campo aberto, as hordas indígenas. Quando resolvi assistir esse filme fui com o pensamento de que veria uma produção muito bem realizada, historicamente incorreta, mas que no final das contas tinha tudo para ser um bom western de entretenimento estrelado pelo ídolo Errol Flynn. Acertei bem no alvo! 

O título em inglês é uma expressão popular no exército que se refere aos soldados mortos em serviço, no campo de batalha - uniformizados, com suas botas! (They Died with Their Boots On). Pois bem, a primeira parte do filme é um tanto romanceada além do que seria razoável, inclusive com toques de humor em excesso, algo que eu realmente não esperava nesse tipo de produção. Essa parte inicial tem muito mais a ver com o estilo bonachão de Errol Flynn do que com a biografia do general Custer, que era um sujeito sisudo e de poucas palavras na vida real (ao contrário da caracterização de Flynn, sempre sorridente e soltando piadas).

Já dos sessenta minutos em diante o filme cresce muito (são duas horas e meia de duração). Isso acontece porque o lado mais romanceado do filme é deixado de lado para que o roteiro desenvolva os eventos que aconteceram com o General e seus soldados. A partir desse momento do filme Custer se torna um general e vai para o oeste lutar nas chamadas guerras indígenas. O filme aqui se torna mais sério, com roteiro muito bem estruturado e com um final muito bem realizado, inclusive do ponto de vista histórico (os tropeços em termos de história ocorrem quase todos na primeira parte do filme). O elenco de apoio traz a simpática Olivia de Havilland fazendo mais uma vez o interesse romântico de Flynn. Charley Grapewin surge no papel de "California Joe", um dos melhores personagens do filme, aqui na pele de um excepcional ator, ótimo mesmo. De resto o filme faz jus à fama do diretor Raoul Walsh, sempre muito competente. Se não é fiel do ponto de vista histórico, pelo menos serve, ainda nos dias de hoje, como um competente veículo de diversão para o espectador.

O Intrépido General Custer (They Died with Their Boots On, EUA, 1941) Direção: Raoul Walsh / Roteiro: Wally Kline, Eneas MacKenzie / Elenco Errol Flynn, Olivia de Havilland, Arthur Kennedy / Sinopse: Cinebiografia romanceada do General George Armstrong Custer (Errol Flynn) e sua sétima cavalaria. Militar famoso desde os tempos da guerra civil ele liderou uma série de ataques contra índios rebeldes em territórios distantes do velho oeste e acabou tendo um final trágico.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Os Filmes de Faroeste de Burt Lancaster - Parte 1

Ele não foi essencialmente um ator de filmes de western. Só que como todo astro de Hollywood também fez filmes de faroeste. Na era de ouro do cinema americano não havia saída. Todo ator, seja de que categoria fosse, tinha que também ter seu legado de filmes do velho oeste. Além disso a bilheteria era quase certa, então mais do que natural que eles fossem escalados pelo estúdio para esse tipo de produção. 

Em relação a Burt Lancaster ele de fato estrelou poucos filmes nesse estilo. Tendo atuado em quase 90 filmes ao longo da carreira, era de se esperar mais atuações dele nesse tipo de filme. Ao invés de subir no cavalo e trilhar as planícies do oeste selvagem, Burt se concentrou mesmo em filmes policiais, aventuras de capa e espada e também dramas românticos ao velho estilo. 

Só em 1951 ele finalmente trilhou o caminho que seus admiradores tanto esperavam. O filme se chamava "O Vale da Vingança" (Vengeance Valley, EUA, 1951). Era sem dúvida um western autêntico, mas também um drama romântico, com toques psicológicos, mostrando uma família com muitos conflitos, no mundo rural do Colorado. Pai e dois filhos em conflito permanente. Em jogo uma fazenda rica em cabeças de gado! 

De fato Burt Lancaster não queria fazer mais um bang-bang, como aqueles que faziam fila nas rotinas das sessões de matinê dos cinemas. Ele queria um roteiro mais adulto, algo mais profundo psicologicamente, mesmo que não fosse tão a fundo no drama dos personagens. Esse filme assim lhe soou bem adequado. E foi uma boa estreia pois o primeiro western da carreira de Burt Lancaster acabou agradando aos críticos e também fez sucesso comercial. Ele se sentiu assim duplamente gratificado pelo resultado alcançado. 

Pablo Aluísio.

Mato em Nome da Lei

Mato em Nome da Lei 
Neste excelente faroeste, com um elenco de primeira grandeza, que conta com nomes como: Robert Ryan e também com um (quase) desconhecido Robert Duvall - Burton Stephen Lancaster, ou simplesmente, Burt Lancaster, vive na pele de Jered Maddox, um agente da lei na pequena cidade de Bannock. Certa noite, com Maddox ausente, um bando de arruaceiros e assassinos entram na pequena Bannock e promovem um tremendo quebra-quebra, culminando com a morte de um senhor inocente. Passado alguns mêses, Maddox chega à pequena cidade de Sabbath e imediatamente vai ao encontro do xerife Cotton Ryan (Robert Ryan). Maddox mostra uma lista de nomes a Cotton onde estão relacionados todos os baderneiros que estiveram em Bannock, e diz que ele tem até o meio-dia do dia seguinte para prender os vaqueiros e entregá-los a ele (Maddox) para que sejam julgados pelo assassinato em Bannock.

Cotton abre o jogo com Maddox e diz a ele que os vaqueiros da lista, trabalham para o rico fazendeiro Vincente Bronson (Lee J. Cobb). Cotton explica que foi Bronson quem o nomeou xerife, e além disso grande parte das pessoas que vivem ali, também trabalham para o fazendeiro, mesmo que indiretamente. Ou seja: os habitantes daquele povoado, ou gostam realmente de Bronson, ou têm medo dele. Uma coisa é certa: ele é o dono da cidade. Sendo assim Ryan deixa claro à Maddox que não vai ajudá-lo em nada. Furioso, Maddox diz à Ryan que todos os vaqueiros serão presos. Por bem ou por mal. No dia seguinte, Ryan parte em direção à fazenda de Bronson para dar-lhe o recado de Maddox. Para surpresa, Bronson não age como um cafajeste desumano; pelo contrário: o fazendeiro mostra-se um homem equilibrado e arrependido pelo que seus homens fizeram na pequena cidade. Na verdade, Bronson não quer entregar seus homens e nem a si mesmo a Maddox, e faz uma proposta: indenizar à família do senhor que morreu na baderna, além de indenizar também o xerife Maddox para que ele esqueça as ordens de prisão. Mas Ryan adverte que Maddox não aceitará a proposta.

À noite, descansando no hotel, Maddox recebe a visita da bela Laura Shelby (Sheree North) uma linda mulher que no passado foi sua amante. Ela pede ao implacável agente que poupe a vida de seu atual marido que também está na lista: Hurd Price (J.D. Cannon). Maddox não dá ouvidos à ex-amante e diz que vai prender seu marido também. Na fazenda, Vincent Bronson reúne seus vaqueiros e diz o que está acontecendo. Os homens se revoltam e pensam num meio de contornar o problema e tirar Maddox da jogada. A reunião esquenta e o braço direito e capataz de Bronson, Harvey Stenbaugh (Albert Salmi), revolta-se com a situação, diz que não vai negociar, e vai até a cidade para matar Maddox. Os dois vão para a rua e ficam frente a frente. Maddox, numa frieza impressionante, saca sua arma e, rápido como um raio, mata Stenbaugh.

Depois de saber da morte de seu amigo e braço direito, Bronson se desespera, reúne seus homens e juntos seguem para a pequena Sabbath para o enfrentamento final contra o implacável agente da lei. Apesar do título infeliz recebido no Brasil, "Mato em Nome da Lei" (Lawman - 1971) é um excelente faroeste, dirigido pelo inglês Michael Winner, que três anos depois dirigiria o explosivo "Desejo de Matar" com Charles Bronson. "Mato em Nome da Lei", destaca-se não só pelo excelente roteiro mas também pela excelente jogada de utilizar elementos de outros clássicos do western como "Matar ou Morrer". Outra qualidade do filme é a construção da história em torno da enorme categoria e carisma do grande Burt Lancaster, encarnado no papel de um impagável, obsessivo e incorruptível xerife Maddox.

Mato em Nome da Lei (Lawman, Estados Unidos,1971) Direção: Michael Winner / Roteiro: Gerald Wilson / Elenco: Burt Lancaster, Robert Ryan, Lee J. Cobb, Robert Duvall / Sinopse: Jered Maddox (Burt Lancaster) é um xerife que vai até outra cidade para prender um grupo de criminosos, algo que não será nada fácil para ele.

Telmo Vilela Jr.